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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Crítica: Machete

Quando Robert Rodriguez e Quentin Tarantino lançaram seu projeto comum, Grindhouse, algo chamou tanto a atenção dos fãs quanto os próprios filmes (Planeta Terror e À Prova de Morte) que compunham o projeto: era o falso trailer que os precedia, Machete.

Com um nome cujo significado é “facão”, o personagem incorporado por Danny Trejo tornou quase uma lenda instantânea. Rodriguez decidiu então levar a história a sério e rodar este longametragem, com status de filme cult e contando com um elenco estelar, que inclui Robert de Niro, Jessica Alba, Michelle Rodriguez, Lindsay Lohan e a participação mais que bem-casada de Steven Seagal, o rei dos filmes “B” de ação.

Como o antiherói em questão é de nacionalidade mexicana, os roteiristas Rodriguez (Robert e Álvaro) resolveram contextualizar a história com o assunto que mais tange a relação entre México e EUA: a imigração. A mesma, clandestina ou não, interessa a alguns (empregadores em busca de mão-de-obra qualificada e barata), mas causa desdém nos norteamericanos nativos, o que faz com que o governo use a “perseguição” aos chicanos como plataforma política.

Após ser perseguido por um traficante de drogas, Machete (Trejo) aceita o trabalho sujo de matar um senador corrupto (Robert de Niro, ótimo e bonachão como sempre). Para isso, contará com a ajuda de um padre (Chech Marin), uma socialite especialista em manuseio de armas (Lohan) e uma misteriosa mexicana vendedora de nachos (Rodriguez). Para perseguí-lo, temos o próprio traficante (Seagal) e uma fiscal de imigração (Alba).

À vontade como Machete, Danny Trejo dá conta do recado e se sustenta bem como protagonista, mas a opção (ou não) do diretor por abandonar o espírito trash cômico do falso trailer e assumir uma versão socialmente crítica e partir para a ação sanguinolenta acabaram por tirar um pouco da graça que havia na tosqueira proposta anteriormente.

É claro que as escolhas não foram em vão. O filme chega aos cinemas encorpado, mais denso e com muito sangue e cabeças decepadas para agradar aos fãs do gênero. Sequências infames e totalmente inverossímeis já nascem antológicas, como a do hospital e a da freira – não digo do que se trata, para não tirar a graça. Mas, pelo seu todo, não parece ser do tipo que fará nerds vibrarem como Planeta Terror e À Prova de Morte fizeram.

É um bom filme, com bons roteiro, direção e elenco, mas faltou um pouco de tempero (leia-se graça) para o caldo ficar completo.

Trailer:

(idem, EUA, 105 minutos, 2010)
Dir.: Robert Rodriguez e Ethan Maniquins
Com Danny Trejo, Robert de Niro, Steven Seagal
Nota 7,0
 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Vivendo o outro lado da moeda

Pode parecer estranho para alguns, mas para mim é ótimo ser crítico e produtor ao mesmo tempo. Enquanto dedico boa parte do meu tempo para escrever sobre os filmes dos outros, vez por outra me deparo com uma crítica de algum curta meu.

Acho fascinante como um filme, depois de finalizado e exibido, pode ser interpretado de diversas formas. Para mim, este é um dos grandes baratos da sétima arte.

Após o término do Festival de Brasília deste ano, onde um dos curtas que produzi foi exibido, me deparei com uma crítica deste meu curta, chamado “Procedimento Hassali ao Alcance do Seu Bolso”.

A crítica foi escrita pelo Ciro Inácio Marcondes, crítico e professor de História do Cinema da Faculdade IESB e da UnB. Sua compreensão do filme nem sempre é igual à que intencionávamos passar, ao fazê-lo. Mas isso não importa. O mais interessante é saber que, de alguma forma, despertamos reflexão em alguém, através do nosso trabalho. Nós, da equipe do filme, estamos bem felizes com a recepção que o mesmo tem recebido por onde passa. Transcrevo abaixo as palavras do Ciro:

"Procedimento Hassali, mais um filme da boa safra recente da Universidade de Brasília, é um dos falsos-documentários mais espirituosos e argutos realizados em bandas brasileiras. Pode-se dizer até que nosso cinema 'sério' (tipo cinema novo ou retomada) tem uma pegada pelo épico, pelo trágico, pelo drama. Nosso cinema desprezado (tipo chanchadas ou embrafilme) tem uma pegada pelo deboche, por uma anarquização esculhambada tipicamente brasileira, um bas-fond do estado cinematográfico das coisas. Hassali tem essa última pegada, meio aloprado e marginal, travestido de caretice e 'informação que você pode confiar'.

Assim, numa linguagem perfeitamente jornalística (de almanaque) e com um compromisso documental estilo 'Globo Repórter', somos levados a dezenas de entrevistas a respeito do fenômeno do tal procedimento, que consiste em religar organicamente pais e filhos através de um cordão que sai dos dentes. O absurdo da popularização deste fenômeno vai sendo contado com a eficiência de um jornalismo documental 'ético e comprometido', com planos de transição denunciadores, trilha sonora que dimensiona as emoções, entrevistas com especialistas, pessoas que realizaram o procedimento e o abandonaram, classes sociais distintas, timing de neutralidade, incitação à polêmica e entrevistas calculadamente apressadas, imbecilizantes, pífias.

Diante de uma geração audiovisual aparentemente sem talento para o humor realmente engraçado (já viram os novos programas do Multishow? E da MTV?), os garotos da UnB, num procedimento de negatividade nem tão sutil, acertam em cheio ao virar o jogo contra a estupidez da adesão viral a modas científicas e/ou médicas ignóbeis e sem sentido, assim como ao criticar a suposta neutralidade e incapacidade crítica do jornalismo televisivo e do documentarismo tradicional em geral. Assim como em tantos documentários que vemos por aí, os personagens de Procedimento Hassali nada têm (às vezes literalmente) a dizer, e nesse vazio é que encontramos espaço para o humor e, consequentemente, ao comentário social sagaz."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Crítica: A Rede Social


Mark Zuckerberg criou o Facebook em 2004, com investimento inicial de mil dólares. Em pouco tempo, o site adquiriu notoriedade na internet e se tornou a maior rede social do mundo, atualmente com mais de 500 milhões de pessoas inscritas. Só isso já daria um filme, mas o que o livro “The Accidental Billionaires” (de Ben Mezrich) revelou foi que havia muito mais histórias e intrigas por trás de tudo isso.

Jovem de apenas 20 anos à época da criação do site, Mark o fez, segundo livro e filme, inspirado numa desilusão amorosa, depois da qual passara uma noite embriagado criando um site específico para alunos da Universidade de Harvard, onde estudava, que obteve mais de 20 mil acessos em duas horas, gerando pane nos servidores da universidade, chamando a atenção dos superiores e de dois irmãos ricos (Winklevoss) à procura de um programador para um projeto deles.

Com uma ideia ainda maior em mente, Mark aceita o convite para trabalhar com os irmãos Winklevoss (gêmeos, ambos interpretados por Armie Hammer), mas não conclui o trabalho que se comprometeu a fazer e pior, registrando o Facebook em seu nome, com a ajuda do amigo Eduardo Saverin (cofundador do site), o que gerou um processo milionário contra ele.

O que Aaron Sorkin (roteirista também de “Jogos do Poder”) fez foi pegar esta história – extremamente atual e ainda obscura e incompleta – e ater-se a contá-la através da audiência do processo. A partir destas cenas entre os advogados e os envolvidos no caso é que a história vai sendo recapitulada. O problema é que quando se utiliza da visão dos personagens, fatalmente a construção dos seus caráteres será limitada e parcial. Assim, o que vemos na tela são personagens fracos, restritos às denominações de mocinho e vilões.

O roteiro desenvolve bem os diálogos, mas não os personagens e tenta esconder seus defeitos com um falatório sem fim e tem sorte em encontrar apoio na trilha sonora eletrizante e numa montagem eficiente e bastante ágil.

David Fincher (“Clube da Luta” e “Zodíaco”) dirigiu a pulsos firmes esta que era uma produção delicada, passível de muitas contestações por parte dos retratados, inclusive por arriscar-se a denegrir a imagem de um dos mais poderosos sites do mundo.

O elenco é liderado por Jesse Eisenberg (“Zumbilândia”), que pode garantir uma vaga dentre os nomeados para o Oscar, e conta com a atuação elogiosa de Justin Timberlake (“Guru do Amor”) na pele do criador do Napster – um dos principais sites de download de músicas do mundo –, mas quem rouba a cena é Andrew Garfield, que já havia se destacado por sua atuação em “Leões e Cordeiros” e em 2012 ganhará as telas do mundo como o novo Homem-Aranha.

As poucas falhas de “A Rede Social” são mínimas, especialmente se o filme for tido como apenas mais uma história de intrigas e não for levado a sério, como “a verdade sobre os fatos”. Assim, sua história se torna empolgante e gera fascínio. É mais um filmaço para a coleção de um grande diretor.

Trailer:

(The Social Network, EUA, 121 minutos, 2010)
Dir.: David Fincher
Com Jesse Eisenberg, Adam Garfield, Justin Timberlake
Nota 8,5

Crítica: Abutres (Carancho)

Abutres tem uma missão ingrata: representar a Argentina no Oscar 2011 tão bem quanto O Segredo dos Seus Olhos o fez em 2010.

Dirigido por Pablo Trapero (Família Rodante; Leonera), o filme retrata a rotina dos médicos plantonistas de rua e dos chamados “abutres”, profissionais especializados em abordar parentes das vítimas de acidentes, oferecendo-os os seus serviços de consultoria para arrancar um bom dinheiro das seguradoras.

O papel da médica plantonista é exercido por Martina Gusman, que já havia protagonizado Leonera muito bem e repetiu a dose neste longa. O tal abutre é encarnado por Ricardo Darín, o Gerard Depardieu - aquele que aparece em quase todos os filmes franceses - argentino. Os dois personagens têm um envolvimento romântico e é daí que surgem os maiores conflitos da história, pois ao ajudarem um ao outro, ambos podem ter suas carreiras arruinadas. Forma-se então uma balança que cada vez tende mais para este ou aquele lado, podendo levar a lado algum se o amor falar mais – por mais pessimista que isso possa parecer.

Trapero faz uma crítica sem dó ao sistema securitário, mostra-se seguro em sua proposta e faz um filme forte, tenso e intrigante. A boa fotografia conta com uma excelente operação de steadycam, que oferece movimentações que são um deleite para os cinéfilos mais técnicos.

Ao mesmo tempo, uma pós-produção de som maltratada entrega um resultado ruim, com sonoplastia esquisita e falas levemente dessincronizadas em alguns momentos. Mas isso é esquecido à medida que a história se desenvolve e desvia a atenção para si.

Pena que Ricardo Darín, desta vez, não estava em seu melhor momento, com uma atuação preguiçosa. Sua instrospecção é facilmente confundida com má vontade, sendo que sabemos que ele pode muito mais que isso.

Pequenos defeitos à parte, Abutres é um ótimo filme e não interrompe a sequência de bons filmes hermanos a ganharem o mundo. Pode até não conseguir a indicação à estatueta dourada, mas pelo menos os argentinos podem se sentir satisfeitos por terem feito uma boa escolha para representá-los.

Trailer:

(Carancho, Argentina/Chile/França/Coreia do Sul, 107 minutos, 2010)
Dir.: Pablo Trapero
Com Ricardo Darín, Martina Gusmán
Nota 7,5

Valido a inscrição do meu blog ao serviço de Paperblog sob o pseudónimo fredburle  

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Homem-Urso


Werner Herzog rodou este documentário para contar a história de Timothy Treadwell, ambientalista estadunidense famoso por suas palestras em escolas mundo afora, esclarecendo e protestando contra a matança dos ursos pardos.

Durante 15 anos, três meses ao ano, Timothy viveu em meio aos ursos, numa floresta do Alasca. Morreu, juntamente com sua namorada à época, devorado por um daqueles ursos.

Timothy era são e insano, certo e errado, meigo e agressivo, um paradoxo ambulante que desperta amor e ódio no público. Ao mesmo tempo que fazia um trabalho admirável de conscientização e pregava paz, tinha surtos de agressividade; declarava amor aos animais, mas em determinado momento chinga umas moscas com visível ódio; se dizia desapegado das coisas materiais, mas era extremamente vaidoso e se importava muito em como aparecer em frente às câmeras e passar sua mensagem; e por aí seguem uma sequência de boas intenções e incoerências.

Através de depoimentos de familiares, amigos, ambientalistas e médicos-legistas, além de muitas imagens do arquivo pessoal e de trabalho do próprio Treadwell, Herzog mostra que por trás desta história haviam muitas outras questões implícitas, dignas de serem exploradas e vastamente discutidas.

Já realizei algumas sessões deste filme para várias pessoas e sempre, ao término da sessão, a discussão que se inicia e as reflexões que o filme incita em todos duram um longo tempo. O mais interessante é que isto só é proporcionado porque Herzog manipula bem as imagens, mas não se concentra em apenas defender o seu ponto de vista que, sim, lá está em alguns momentos cruciais.

O diretor mostra depoimentos a favor e contra os atos do ambientalista em questão e aproveita alguns momentos para dissertar sobre o uso das imagens, o fascínio de se registrar momentos de pura beleza através de imagens em movimento e também sobre o método que Treadwell utilizava nas filmagens de suas expedições.

À medida que a história do personagem vai sendo aprofundada, aprofundam-se também as discussões e a gama temática só aumenta. Quais são os limites entre o Homem e a Natureza? Até que ponto é saudável o isolamento? O que leva uma pessoa a tomar atitudes extremistas? Estava Timothy certo ou errado? Afinal de contas, ele não morreu feliz? As respostas podem seguir caminhos diferentes, mas estão todas lá e cabe a cada espectador extrair dali o que melhor lhe convir, para formar a sua própria opinião.

A mágica do documentário, neste filme, acontece, graças à história de um louco (ou não) e ao trabalho de um gênio.

Trailer:

(Grizzly Man, 105 minutos, 2005)
Dir.: Werner Herzog
Nota 10

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Crítica: O Garoto de Liverpool


Apesar de não ter alcançado – pelo menos por enquanto – êxito expressivo no cenário comercial, O Garoto de Liverpool tem configurado-se como a principal cinebiografia de John Lennon.

Depois de mais de uma dezena de outros filmes com o astro do rock como epicentro, esta obra emerge sob a promessa de contar “a história não contada” sobre ele. O roteirista Matt Greenhalgh, que também assinou o roteiro do elogiado Control (cinebiografia sobre Ian Curtis, do Joy Division), concentrou a trama na adolescência de Lennon, quando ele tinha dificuldades de integração nos colégios que passou e um relacionamento conturbado com a mãe e com a tia, que foi quem o criou.

O filme inicia-se quando da morte do tio, George, passando pela primeira banda (The Quarrymen), o início de amizade com Paul McCartney (interpretado por Thomas Sangster, o garotinho de Simplesmente Amor), até a ida para Hamburgo, na Alemanha, onde ele iniciou definitivamente a carreira.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Wood, o filme assume contornos sutis e é contado de maneira extremamente agradável, com muita música – não esperem ouvir nada dos Beatles – e ritmo constante, com os seus diversos ápices bem distribuídos, o que não deixa o espectador desviar a atenção do que se passa na tela, do começo ao fim.

Talvez por ser inglês, envolver música e uma história de determinação e crescente alcançar dos sonhos, além do dinamismo da montagem, o filme (estranhamente ou não) guarda suas semelhanças com o excelente Billy Elliot (2001).

Estranha apenas me pareceu a escolha de Aaron Johnson (Kick Ass) para interpretar o protagonista, já que o mesmo não guarda semelhanças físicas e nem entrega um estouro de interpretação que o justificasse como John Lennon. Ele apenas segura bem o rojão, mas fica a impressão de que diversos outros atores fariam melhor.

Continuando uma sequência impressionante de boas interpretações, está Kristin Scott Thomas (Há Tanto Tempo Que Te Amo), esplêndida, com uma segurança que poucos artistas chegam a ter e que cativa e torna densa e absurdamente humana a tia de John Lennon, Mimi, personagem que tinha tudo para ser retratada como a vilã da história, mas o que a motivou é tão plausível e o julgamento, tanto dela quanto dele e a mãe dele, fica aberto a discussões, o que é bastante saudável. Saudável como o desenvolvimento útil e coerente dos personagens que o cercam, não ficando limitado à figura central.

As sequências de transição, regidas por muita música boa, dinamizam a história, que segue numa linearidade paradoxalmente crescente. A vontade de ouví-lo como o famoso John Lennon vai aumentando à medida que ele faz suas descobertas musicais e conhece cada membro da banda, desde os que abandonaram a carreira, até os dois que compuseram os Beatles, Paul Mccartney e George Harrison – Ringo Star não chega a aparecer no filme.

Bem acabado tecnicamente, serve como registro de uma versão dos fatos e uma singela, divertida e interessante homenagem a um dos grandes ícones do rock mundial.

Trailer:

(Nowhere Boy, Inglaterra/Canadá, 96 minutos, 2009)
Dir.: Sam Taylor-Wood
Com Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas, Anne-Marie Duff, Thomas Brodie Sangster
Nota 8,5

domingo, 28 de novembro de 2010

Curta: Werner Herzog Come Seu Sapato

No final da década de 70, Werner Herzog estimulou Errol Morris a fazer um filme, pois via naquele então jovem talento para o cinema. A vontade era tanta que Herzog prometeu comer seu próprio sapato se Morris aceitasse o desafio.

Pois bem que fez o tal filme (“Gates of Heaven”), sem dinheiro algum e em 1978, lançou-o em festivais, sendo tido como um dos melhores filmes daquela década. Herzog resolveu então fazer do pagamento da promessa um evento publicitário, como um apelo para que as distribuidoras se interessassem em divulgar o filme do amigo, que poderia facilmente cair no ostracismo, não fosse este seu gesto.

Além de ser um curta que conta esta história, “Werner Herzog Come Seu Sapato” é uma pequena aula de cinema, não pela sua feitura (com direção de Les Blanc), mas pelo que Herzog fala no decorrer da película. Um grande incentivo para aqueles que querem fazer cinema.

Não é à toa que ele foi professor de cinema por muito tempo e é um dos maiores cineastas da história. Minha admiração por ele só aumenta, a cada filme seu que vejo.

Curta na íntegra:

Dir.: Les Blanc
Nota 8,5

sábado, 27 de novembro de 2010

Olho nela: Elle Fanning

Elle Fanning tem apenas doze anos de idade e já com um currículo impressionante no cinema.

A garota começou a aparecer já aos (quase) 3 anos de idade, quando serviu de “versão criança” para a própria irmã (Dakota Fanning) no filme Uma Lição de Amor. De lá para cá, participou de várias séries de tevê e outros filmes, mas sempre participações mais discretas.

De qualquer forma, já tem em sua filmografia, filmes como O Curioso Caso de Benjamin Button, Deja Vu e Babel.

Neste ano, ela estrelou o novo longa de Sofia Coppolla, Somewhere, vencedor do Leão de Ouro em Veneza. Nele, Elle rouba a cena e encanta pela sua beleza e naturalidade. Sai-se muito melhor, inclusive, que sua irmã – que sempre fez cara de sofrida e deu uma de adulta.

Depois disso, a menina tem pela frente projetos dirigidos por ninguém menos que Cameron Crowe, Francis Ford Coppolla e J.J. Abrams, além da ter assinado para um dos papéis principais da cinebiografia do músico Vivaldi.

Nada mal para quem está “apenas” começando!

Trailer de "Somewhere":
 

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crítica: Os Outros Caras


Não gosto do Will Ferrell e não vejo a menor graça em suas piadas. Pelo que demonstram as bilheterias dos seus filmes no Brasil, a maioria dos brasileiros concordam comigo. Mas justiça seja feita: em “Os Outros Caras”, é ele quem carrega o filme nas costas. E olha que o peso para carregar é grande: Michael Keaton, Damon Wayans Jr, Dwayne “The Rock” Johnson, Samuel L Jackson e Mark Wahlberg (com seu cabelo em formato peruca-feroz).

Pela segunda vez – a primeira foi com “Mais Estranho Que a Ficção” - Ferrell prova que, quando quer, é um bom ator.

A direção do longa fica a cargo de Adam McKay, que quase (e finalmente) acerta a mão, depois de podreiras como “O Âncora”, “Ricky Bobby” e “Quase Irmãos”, todos protagonistas por... Mr. Ferrell.

Ele conta a batida história da dupla de policiais mal-sucedidos que, depois de anos no limbo, vêem na morte dos principais tiras da corporação a chance de provar que são bons e voltar ao alto escalão, ao substituir os policiais mortos. A dupla em questão é Allen (Ferrell) e Terry (Wahlberg). O primeiro tem, inacreditavelmente, uma esposa maravilhosa, de corpo escultural e carinhosa, vivida por Eva Mendes (“Hitch – o Conselheiro Amoroso”). O segundo vive tendo problemas com as mulheres e está sempre gritando e de mau humor.

O fato de Terry subestimar a capacidade de Allen rende uma sequência que por si só já vale o ingresso: a do jantar de apresentação da esposa de Allen para Terry. Impagável. Além desta, algumas outras cenas arracam risadas, mas a instabilidade do roteiro impede que o riso flua naturalmente, com outras tantas cenas que forçam a barra e extrapolam o bom senso. Afinal, por que tanto prazer em colocar os atores em situações constrangedoras? Para fazer valer o dinheiro que eles ganham? Das duas uma: ou os atores que se submetem a isso não têm sendo do ridículo ou estão desesperados por grana.

Algumas tentativas de inovar saem como tiros pela culatra, especialmente as sequências que são acompanhadas por um “hip-hop-yo” enfadonho, com estética de videoclipe vazio.

Como uma montanha russa, “Os Outros Caras” vai da surpreendente sutileza ao extremo grotesco em questão de segundos e impede o divertimento solto. Mas livra-se da bomba que poderia ser.

Trailer:

(The Other Guys, EUA, 107 minutos, 2010)
Dir.: Adam McKay
Com Will Ferrell, Mark Wahlberg, Eva Mendes,
Michael Keaton, Samuel L Jackson, Dwayne Johnson
Nota 6,0


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Curta: The Facts In The Case of Mr Hollow


Vejam que curta ótimo: “The Facts In The Case of Mr Hollow” é uma demonstração de como uma fotografia pode ser um documento probatório de extrema importância.

Assim como Antonioni utilizou uma fotografia como mote de “Depois Daquele Beijo” (Blow Up, 1983), os diretores Rodrigo Gudiño e Vincent Marcone também usaram uma foto (da década de 1930) como personagem principal do seu curta. Só que, desta vez, toda a história e os indícios do mistério estão contidos nela que, à medida que a câmera passeia pelos seus detalhes e os ilumina, faz revelações e mostra como cada detalhe é importante na análise documental.

O curta foi ganhador de prêmios nos festivais internacionais da Catalúnia e de Puchon, concorreu ao Genie Awards e concorre no Cannes Short Film Corner. Vale uma espiada/análise.


(idem, Canadá, 5 minutos, 2008)
Dir.: Rodrigo Gudiño e Vincent Marcone
Nota 8,0


terça-feira, 23 de novembro de 2010

Crítica: Peepli Live

Aamir Khan é um dos homens mais badalados e poderosos de Bollywood. Ator de mais de 40 filmes, dentre eles os elogiados “Lagaan”, “3 Idiots” e “Pinta-me da Cor do Açafrão”, já se arriscou na direção – com o ótimo “Estrelas na Terra” – e na produção. Praticamente tudo que tem o seu nome é sucesso na Índia e, de uns tempos para cá, vem sendo conhecido pelo público do mundo todo. É dele a produção deste “Peepli Live”, escolhido da Índia como seu representante no próximo Oscar.

O filme toca num assunto atual e delicado pelas bandas de lá (o abismo existente entre os meios rural e urbano), mas o faz de maneira leve. A crítica advém do tom cômico – e quer melhor meio de ser crítico do que através da comédia?

Budhia e Natha são dois irmãos camponeses que estão prestes a perder suas terras por contas de dívidas que não têm como pagar, pois os bons tempos de lavoura se foram e não dão sinais de retorno. Pensando numa espécie de indenização que o governo dá às famílias dos agricultores que cometem suicídio (um absurdo real), Natha resolve que vai se matar.

O problema é que ele conta isso para um amigo e a conversa é ouvida por um jornalista local, que imediatamente contacta a jornalista do maior jornal do país, desencadeando uma onda de reportagens sobre o caso. O suicídio de Natha vira polêmica nacional e toda a imprensa quer cobrir o caso, fazendo daquilo uma novela sensacionalista, acampando em frente à pequena casa do camponês, a fim de acompanhar passo-a-passo do seu caso e saber o fim da história, ou seja, se ele vai mesmo ou não vai se matar.

O suicídio de agricultores alcança números exorbitantes na Índia e o governo faz vista grossa para tal, evitando ao máximo tocar no assunto. As poucas vezes que os governantes falaram disso, tentaram minimizar o problema, dizendo que o dinheiro concedido às famílias era apenas uma “compensação” pela sua perda. Um absurdo que acontece há muito tempo, mas que nunca foi resolvido.

A dupla de diretores Anusha Rizvi e Mahmood Farooqui tratam do tema com elegância e fazem um protesto brilhante sem precisarem ser agressivos e Anusha – que também foi a roteirista – em momento algum coloca discursos extremistas na boca dos seus personagens. Tudo é exposto com naturalidade, inclusive nas atuações semi neorrealistas, que se aproximam das interpretações da escola do cinema italiano.

A estética empregada ao sertão indiano é bastante semelhante ao sertão de Glauber Rocha em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e seu protagonista é quase um espelho do inesquecível Zé do Burro de Leonardo Villar em “O Pagador de Promessas” ou dos malandros personagens de José Dumont em “O Homem Que Virou Suco” e “Narradores de Javé”.

Peepli Live” tem sido aclamado pela crítica e pelo público e soará incrivelmente familiar aos brasileiros. É o indiano mais brasileiro de todos os filmes, com um tema que me faz ter vergonha e uma produção que me faz sentir orgulho como se fosse um filme do meu próprio país.

Trailer:

(idem, Índia, 98 minutos, 2010)
Dir: Anusha Rizvi e Mahmood Farooqui
Nota 9,0

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Começa nesta terça-feira (23), o 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o festival de cinema mais tradicional do Brasil. A programação se espalha por vários pontos do Distrito Federal e se estende até o dia 30 de novembro.

Este ano, cineastas de todo o país enviaram para a comissão de seleção 36 longas, 122 curtas 35 mm e 301 curtas digital. Só do Distrito Federal foram inscritos 108 filmes; 4 longas, 20 curtas 35 mm e 84 filmes no formato digital.
As produções selecionadas integram várias programações; Mostra Competitiva 35mm, Mostra Brasília, Mostra Petrobras Revelando os Brasis, Festivalzinho, filmes restaurados e produções para a abertura e encerramento do festival.
Dentro da Mostra Brasília está “Procedimento Hassali ao Alcance do Seu Bolso”, curta produzido por mim. Será exibido no dia 24 de novembro (quarta-feira), às 14:30 hs, na Sala Martins Penna do Teatro Nacional.
Durante o Festival, o público poderá estabelecer contato com cineastas, técnicos e realizadores nos debates pós-sessão. Os debates da mostra competitiva 35 mm se realizam a partir das 11h do dia seguinte à exibição de cada filme no Cine Brasília. Os da mostra digital, logo após a apresentação na Sala Martins Pena do Teatro Nacional. Outras formas de participação do espectador são os seminários, oficinas, palestras e lançamentos de filmes, livros e DVD, programados para as dependências do Kubitschek Plaza Hotel, e sempre com acesso livre.
Dentre os seminários, o grande destaque é o seminário “Da juventude transviada à juventude plugada”, com presença dos cineastas Laís Bodansky (“Bicho de Sete Cabeças”; “As Melhores Coisas do Mundo”) e André Klotzel (“Reflexões de Um Liquidificador”).
Este ano, o Festival de Brasília presta homenagem a Carlos Reichenbach, um dos grandes realizadores brasileiros, muitas vezes presente ao evento ora concorrendo, ora na curadoria ou integrando a comissão de julgamento. Dele, será exibido dia 23, na abertura, na Sala Villa Lobos, o filme “Lilian M: Relatório Confidencial, produção de 1974/1975. A sessão é para convidados.
A cerimônia de premiação dos vencedores do 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ocorre a partir das 20h30, de terça feira, 30, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, quando será exibido o filme “Os Deuses e os Mortos”, de 1970, dirigido Ruy Guerra, em sessão restrita a convidados.

Mais informações sobre os selecionados e a programação completa estão disponíveis no site do festival: http://www.festbrasilia.com.br

 
 
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