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sábado, 15 de setembro de 2012

Crítica: Gates of Heaven

 Este filme envolve histórias interessantes dentro e fora dele: Errol Morris, o diretor, nunca tinha pensado em fazer filmes. Era tido como um cara muito inteligente, mas que não conseguia concluir nenhum projeto. Começou a faculdade de História, não terminou. Depois partiu para a Filosofia, mas também abandonou o curso. Em decorrência por sua paixão por filmes noir e por Hitchcock, decidiu ir para Wisconsin, investigar a vida do serial killer Ed Gein – aquele que deu origem ao clássico Psicose, de Hitchcock. A intenção era escrever um livro, mas àquela época ele já considerava que aquilo poderia virar um filme. O projeto também nunca foi concluído.

Foi então que o diretor alemão Werner Herzog, amigo de Morris, foi até Wisconsin e entregou-lhe um envelope com 2 mil dólares, com um desafio: que Morris prometesse pegar o dinheiro e fazer um filme. Caso o mesmo fosse concluído, Herzog comeria o próprio sapato, que usava na ocasião.

Errol, ao ler uma nota de rodapé de jornal, sobre a falência de um cemitério de animais em Los Altos, na Califórnia, resolveu fazer um filme sobre aquele lugar e sobre o novo lugar de estadia dos 450 caixões de animais que lá se encontravam. O projeto não só ficou pronto, como obrigou Herzog a cumprir a tal promessa, que acabou servindo como protesto por Morris não conseguir distribuição, como também gerou um curta bizarro e sensacional, Werner Herzog Come Seu Sapato. A distribuição para Portais do Céu, depois de tal “protesto”, não demorou a sair.

O resultado é que Portais do Céu não só foi tido (merecidamente) como um dos melhores filmes de 1978, como também marcou o início da carreira de Morris, que mais tarde ganharia o Oscar de melhor documentário por The Fog of War (2004), além de também dirigir obras aclamadas, como The Thin Blue Line – considerado um dos melhores da história – e Procedimento Operacional Padrão (2008).

Este é um documentário cru, com câmeras estáticas e quase imparcial. O diretor simplesmente registrou os acontecimentos, não usou recursos opinativos, como a voz em off, e deixou com que seus personagens falassem o que quisessem, desde questões práticas sobre os cemitérios, até questões filosóficas, críticas ao american way of life ou simplesmente sobre a saudade e o valor dos bichinhos de estimação para os seus donos. Tudo sem maiores julgamentos. É, inclusive, muito fácil um grupo assistir ao filme e cada um ter uma opinião diferente sobre ele e sobre seus retratados.

Bem quadrado, é verdade, mas honesto e muito interessante.

Trailer: 


(Gates of Heaven, EUA, 82 minutos, 1978)
Dir.: Errol Morris
Nota 8,0

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Crítica: Confessions


Ah, o Japão e suas histórias de vingança! Talvez só a Coreia do Sul consiga fazer concorrência com eles neste segmento.

Confessions é um grande exemplar de filme de vingança. Está tão à frente do que costumamos ver que pode até ser comparado com as melhores (ou seriam piores?) tragédias gregas, com toda a sua complexidade, muitas histórias e substanciosos personagens e um requinte de crueldade de dar medo.

Não deixa de ser também um espelho frio de uma sociedade deprimida, que convive com casos de bullying e violência juvenil tão rotineiramente que é preciso veículos assim para fazer parar para pensar e não deixar que isso se torne algo banal.

Confessions vai fundo na análise psicológica de vários personagens, em sua maioria jovens sofrendo de solidão, necessidade de atenção, falta de perspectiva, desvio de valores ou simplesmente ignorância e/ou alienação.

A professora Moriguchi (Takako Matsu) decide sair da escola onde trabalha, mas não sem antes pôr em execução um minucioso plano de vingança contra aqueles que mataram sua filha de quatro anos. No último dia de aula, ela resolve contar aos alunos a verdade sobre os fatos, revela que os assassinos de sua filha estudam naquela classe e explica com frieza o que fez/fará para dar-lhes o troco.

A isto são dedicados os primeiros vinte minutos de película e o que se sucede são as confissões de seis alunos, que ajudam a montar não só o quebracabeças dos fatos, como também a revelar as motivações emocionais de cada um para chegar a tal ponto. São camadas e mais camadas a serem reveladas, num tom épico em slow motion, acompanhado de um trilha sonora ora melancólica ora depressiva, mas nunca desesperada – como se a intenção fosse nunca perder o controle e corroer lentamente os personagens, assim como esclarecer o espectador a conta-gotas.

A fotografia é um espetáculo à parte, de um azul escuro ressaltado e muito gélido, além da execução da concepção de cenas e cenários de um lirismo único.

O filme do diretor Tetsuya Nakashima (de Kamikaze Girls) talvez só peque pelo exagero, no roteiro e nas interpretações, o que é até normal em produções japonesas. Mas mesmo assim é possível enxergar em suas hipérboles verossimilhança e uma crítica feroz a uma sociedade que caminha para o abismo. Caminho que só será interrompido quando se deixar de pagar sangue com sangue.

Trailer:


(idem, Japão, 106 minutos, 2010)
Dir.: Tetsuya Nakashima
Com Takako Matsu, Yoshino Kimura
Nota 8,5

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Crítica: Brasil Animado


Olha, tem umas coisas que eu não consigo entender no cinema nacional – e que sim, me irritam. Este tal de Brasil Animado, por exemplo: numa época em que já está mais que comprovado que animações em 2D não chamam mais públicos e que filmes bobinhos demais só servem para passar na tevê, o que resolvem fazer? Uma propaganda institucional do Brasil, disfarçada de animação e o que é pior, ainda ousa em ser feito em um 3D sem o menor sentido. A maior dó é saber que este filme vai ficar na história do cinema nacional como a primeira animação 3D.

O roteiro é algo inacreditável de tão bobo. Por quase 80 minutos, acompanhamos a dupla Stress e Relax na busca pelo jequitibá rosa, uma espécie arbórica rara, a mais antiga do Brasil. O intuito é ficar rico vendendo ingressos para observá-la. Assim, os dois vão do Oiapoque ao Chuí, num esquema excessivamente didático que estabelece que, a cada parada, um novo passeio turístico dar-se-á pelos seus pontos clichês, guiados pela dupla.

No começo ainda dá para relevar a propaganda, mas chega um momento em que já não se aguenta mais tanta repetição – ainda mais sem possuir um fator gracioso sequer. A impressão é de que estamos pagando para assistir a uma propaganda da Embratur. Algo que não me saía do pensamento era a ideia de que tal roteiro, na verdade, seria o roteiro perfeito. Pensem bem: num país dependente de leis de fomento e editais governamentais para se produzir cinema, quer maior facilitador do que ser uma propaganda do governo? Melhor ainda: tendo em mãos uma proposta que, dentre outros pontos, também exija passar pelas cidades para filmar seus pontos turísticos e inserí-los no filme em live-action, pode-se também rodar o Brasil de graça! Quem não gostaria de uma produção assim?

Maurício Ricardo, que produz suas charges com técnica semelhante, a toque de caixa e numa velocidade impressionante – com a diferença que de vez em quando acerta na piada – estaria dando bobeira em perder uma mamata destas. A zombaria é tanto que, durante os créditos finais, aparecem dois elementos da equipe tomando banho de mar e a dublagem dizendo: “ei, não era para estes dois aí estarem trabalhando? O que eles estão fazendo no mar?”.

Acho ótimo que se tente expandir os gêneros e produzir animações também no Brasil - até porque temos profissionais super talentosos, só à espera de incentivo financeiro -, mas não me conformo que façam isso com tamanha displicência, sem sequer pensar em mercado, principalmente num projeto assim, que deveria ser voltado para... o mercado. Ou vai dizer que o intuito era artístico e que não importa que não seja visto por muita gente?

Para não dizer que tudo são espinhos, é preciso exaltar pelo menos a dublagem de Eduardo Jardim, que confere um pouquinho de credibilidade não só à dupla protagonista, como uma penca de outros pequenos personagens.

No fim das contas, pelo menos como uma ferramenta didática em substituição às insossas cartilhas de estudos sociais este longa poderia servir.

Eu duvido que, num esquema industrial, algo assim seria produzido, com um orçamento de 3 milhões de reais, que dificilmente seria pago nas bilheterias – a arrecadação total não chegou nem a 800 mil reais. Aí quando o público brasileiro prefere ver Toy Story, reclamam.

Trailer:

(idem, Brasil, 75 minutos, 2011)
Dir.: Mariana Caltabiano
Dublagem de Eduardo Jardim
Nota 3,0

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Crítica: También la Lluvia


Paul Laverty, roteirista de quase todos os filmes de Ken Loach – inclusive do hilário e surreal À Procura de Eric, trabalhou durante anos numa história sobre os primeiros anos de Colombo na América, até perceber que poderia fazer algo mais interessante e novo, trazendo o tema da exploração das terras por terceiros e a resistência dos nativos indígenas para os tempos recentes.

Encontrou na Guerra da Água em Cochabamba, em 2000, o perfeito exemplo de resistência civil à privatização do bem mais valoroso à população. O resultado do esforço de criatividade foi um roteiro complexo, de trama intrincada e multifacetada.

Uma equipe de filmagem chega à região de Cochabamba para filmar uma adaptação da história da chegada de Colombo às Américas e como a produção intenciona ser realista, precisam formar o elenco com moradores locais. Por insistência do diretor Sebastian (Gael Garcia Bernal), o produtor Costa (Luis Tosar) contrata Daniel (Juan Carlos Aduviri) para um dos papéis principais do filme. O espírito de liderança de Daniel poderia ajudar a equipe a lidar com os muitos amadores do elenco, mas o problema é que Daniel não é líder só no set de filmagens. Ele é também o líder (arisco) de uma revolta civil prestes a estourar na cidade, contra a tal privatização da água.

O diretor teve de lidar com três filmes em um: o filme sobre a privatização da água em Cochabamba, o filme que reconta a história da chegada de Colombo analogicamente e o filme sobre o filme. Para este último caso, ele ainda utiliza de meta-metalinguagem, ou seja, um making of sobre o filme do filme, utilizado para explicar os personagens. Complicado, mas fácil de entender quando se assiste.

Complicado talvez tenha sido para Eva Leira e Yolanda Serrano, as diretoras de elenco, ter de lidar com tantos atores sociais, mas ou elas fizeram isso muito bem ou deram muita sorte, porque os moradores da região atuaram excepcionalmente bem, ao lado de duas grandes atuações profissionais como a do Gael Garcia Bernal e principalmente de Luis Tosar, incrível como o produtor Costa.

Costa que é, na verdade, o coração do filme. Não à toa é o produtor. É ele quem tem que tomar as decisões mais difíceis, assim como tem a relação mais próxima com a população e, por isso, também se envolve mais nos conflitos e com as pessoas, emocionalmente. Pode até ser estereotipado, mas aqui cada um exerce a sua função e Icíar Bollaín (o diretor real) o faz com fidedignidade.

Com suas semelhanças com a saga épica do Fitzcarraldo de Werner Herzog, Também a Chuva é uma megaprodução espanhola, merecedora da escolha daquele país para ir ao Oscar deste ano e, apesar de contar com concorrentes fortes, não deixou de merecer também o prêmio do público no Festival de Berlim.

Trailer:

(También la Lluvia, Espanha/França/México, 103 minutos, 2010)
Dir.: Icíar Bollaín
Com Gael Garcia Bernal, Luis Tosar
Nota 8,5

sábado, 3 de setembro de 2011

Crítica: Um Conto Chinês


É difícil acreditar que uma história é baseada em fatos reais, quando sua sequência inicial trás uma vaca caindo do céu, mas isso é só o começo e Um Conto Chinês se faz crível (quase) do começo até (quase) o fim.

O maior sucesso argentino do ano – com mais de um milhão de espectadores naquele país – tem como protagonista Ricardo Darín, o figurinha carimbada nos filmes dos hermanos – assim como o Brasil tem Wagner Moura e Selton Mello, a França tem Gerard Depardieu e por aí vai. Mas Darín tem uma vantagem em relação a seus equivalentes: o bom gosto aliado à sorte nas escolhas dos roteiros. Ele dificilmente erra o tiro e desta vez não foi diferente.

O dono de uma casa de ferragens (Darín) leva uma vida pacata, até que sua rotina (e seus nervos) é alterada com a chegada de um chinês desconhecido. As situações que se sucedem deixam o ferreiro sem escolha. Ele precisará ajudar o oriental a encontrar o tio, que mora há alguns anos em Buenos Aires.

A premissa do choque de culturas e aprendizado através da convivência forçada é surrada e há que se dizer que já foi melhor utilizada em outros filmes, como os recentes Goodbye Solo e O Visitante. A linha narrativa é quase a mesma, só que com menos graça e simpatia. É bem verdade que o longa obtém êxito na transferência da sensação de incomunicabilidade, especialmente pela opção em não legendar as falas em mandarim, mas esta opção acarretou na desvantagem de se construir um personagem que deveria ser o contraponto do argentino ranzinza num personagem apático, irritante e, por vezes, burro.

Mesmo assim, existem pontos que prendem a atenção. Seja a história leve e despretensiosa, sejam os quesitos técnicos bem cuidados, como a fotografia de enquadramentos variados e a trilha harmônica, que só entra em cena em momentos oportunos, a concentração é mantida até um momento crucial, no qual uma única cena nos arrebata e nos faz entender o porquê da escolha por filmar esta história. Amolece o coração para as sequências restantes, cheias de suavidade e bons sentimentos.

Por mais que não se trate de uma obraprima, os nossos vizinhos podem se orgulhar de ter um filme bacaninha como o seu grande sucesso do ano. 

Trailer:

(Un Cuento Chino, Argentina/Espanha, 93 minutos, 2011)
Dir.: Sebastian Borenzstein
Com Ricardo Darín, Ignacio Huang
Nota 7,0

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Dicas de Cinema


Com vontade de ir ao cinema, mas não sabe o que escolher, dentre as opções em cartaz? Aqui vão algumas dicas:
Amor à Toda Prova – não se deixe afastar por conta do título em português. Esta nova comédia da dupla John Requa e Glenn Ficarra (Eu Te Amo, Philip Morris) pode até possuir os clichês que o título sugere, mas é muito mais que isso. Com elenco afiado, liderado pelo ótimo Steve Carrell (O Virgem de 40 Anos), o longa trás momentos antológicos – como a cena da conquista ao som de Time of My Life e o encontro das histórias até então paralelas – e além de fazer rir, emociona pela veracidade com que sua história é contada. Emma Stone rouba a cena como a recém-formada advogada e Ryan Gosling convence como o galã dono de técnicas infalíveis de conquista. Completam o elenco uma apagada Julianne Moore e o inexpressivo Kevin Bacon.

Nota: 8,0

Planeta dos Macacos: A Origem – e não é que este reboot com cara de lasanha de micro-ondas deu certo? A história da origem do macacos que dominaram o planeta em outros tantos filmes é contada em tom de thiller, com um suspense de cravar as unhas na cadeira e prende a atenção com inteligência, só descambando um pouco com a introdução das batidas cenas de ação e corre-corre sem conteúdo do final. Mesmo assim e mesmo sem o impacto dos super efeitos que a versão de Tim Burton causou, o longa empolga, faz uma ótima troca de protagonistas com relação à última versão – sai Mark Wahlberg e entra James Franco – e deixa aberto várias pontas para boas sequências. E é bom deixar claro que os efeitos visuais são impecáveis e só não impressionam porque trabalhos visuais assim já não são mais exceção à regra.

Nota 7,5

Super 8 – esta bela homenagem de JJ Abrams ao mestre das aventuras e da emoção Steven Spielberg – que entra como produtor do filme – é também um presente aos fãs de filmes de aventura inocente da década de 80, como ET e Os Goonies. Sem a pretensão de revolucionar em quaisquer aspectos ou contar uma trama complicada, ganha pontos por sua simplicidade e elenco juvenil super afiado, com destaque para a talentosa Elle Fanning.

Nota: 8,0

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Crítica: o primeiro 3D pornô não é pornô


No Fantasy Film Festival que aconteceu em Berlim entre os dias 16 e 24 deste agosto e agora segue em outras seis cidades alemãs, umas das maiores atrações é o rotulado “primeiro filme pornô em 3D” no mundo, "3D Sex and Zen - Extreme Ecstasy". A curiosidade do público ficou ainda maior por causa do seu país de produção, a China. Oras, um dos países com censura mais pesada no mundo ser pioneiro num gênero que dá arrepios em pudicas e repressores da liberdade de expressão é no mínimo inusitado.

Pois hei que fui conferir a tal sessão do filme que já é o maior sucesso de público na China e tem conseguido artigos no mundo inteiro. Que algo tosco vinha pela frente, isso era esperado. Mas a expectativa de que a experiência poderia ser no mínimo interessante desceu ladeira abaixo já nos primeiros 10 minutos. Ali já dava para perceber que o filme não tem, na verdade, nada de pornô. Perde feio pra qualquer porno-soft Emmanuelle.

O orçamento gigantesco de 4,5 milhões de dólares de nada serviu. A sincronização e áudio é horrorosa, não existe um “ator/atriz” que se safe da interpretação medíocre, os cenários pavorosos e o roteiro – que na verdade não existe – são de arrepiar até os cabelos do pé.

Mas a grande causa de aborrecimento naqueles que pagaram caro – cerca de 30 reais o ingresso – esperando ver a inovação pornô em 3D é a falsa propaganda em torno do filme. Ele simplesmente não é pornô, nem soft nem explícito! Não há sequer uma cena erótica, apenas piadas grotescas em nível de Casseta e Planeta acerca de impotência e tamanho de órgãos sexuais. É uma comédia das mais bizarras, com alternâncias com o terror tipo Z, cheio de sangue, pernas, peitos e pintos de borracha sendo cortados a todo instante, acompanhados por gritinhos histéricos das chinesinhas e as caras e bocas irritantes dos aspirantes a ator.

Não fosse o marketing extremamente picareta, talvez o público não sairia frustrado. Os elementos cômicos existem – poderiam ser muito mais – e é possível dar umas risadas em momentos em que o filme só se preocupa em ser besteirol. Mas isso dura pouco. Depois de meia hora de película, o sangue toma conta e aí não sobra ponto positivo para ser ressaltado.

Se você aí quer assistir ao primeiro pornô 3D da história, espere então por Calígula, que está sendo refilmado pelo diretor Tinto Brass, o mesmo responsável pela versão original com Malcolm MacDowell e também pelo clássico Monella – a Travessa.

Por ora e se por acaso este tal chinês chegar ao Brasil, é melhor poupar o seu rico dinheirinho.

Trailer:

Dir.: Christopher Sun
Nota 3,0

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Crítica: Hanna


Depois de dirigir três dramas seguidos (Desejo e Reparação; Orgulho e Preconceito; O Solista), o diretor Joe Wright resolveu incluir um thriller de ação no currículo, experimentando aplicar seus conhecimentos teóricos do gênero.

O roteiro escolhido foi Hanna, escrito pelos estreantes Seth Lochhead e David Farr, cuja personagem-título é uma menina de 16 anos criada escondida na floresta pelo pai para ser uma exímia assassina, desde que a mãe fora morta - numa situação a ser explicada no filme. Capturada pela polícia, a menina foge e inicia-se então e famosa caçada de gato e rato que todos já viram centenas de vezes nos cinemas.

Na verdade, a trama é só mesmo a velha desculpa para o correcorre que interessa ao público em busca de escapismo descerebrado. O fiapo de roteiro não deixa dúvidas disso e o tempo (mínimo) dedicado ao desenvolvimento de personagens também não.

Mas se há algo que compensa em filmes assim é quando a ação funciona e o elenco convence. O primeiro elemento é aqui impulsionado por uma trilha sonora empolgante (assinada pelos The Chemical Brothers) e uma montagem extremamente ágil, além das tomadas em inúmeras locações na Alemanha, Finlândia e Marrocos – por mais que sejam interligadas sem nenhuma explicação plausível.

Já o segundo elemento é liderado por Saoirse Ronan, menina que tem se especializado em estar sempre um nível acima dos seus filmes, que geralmente são bons, mas nunca avançam para o “excelente” - vide Desejo e Reparação, Um Olhar no Paraíso e o mais recente O Caminho da Liberdade.

Outra que dá o ar graça é Cate Blanchett (Elizabeth), como sempre carismática, mas desta vez longe do brilhantismo que geralmente demonstra. Em Hanna, a consagrada atriz cede, em alguns momentos, às clichês caras e bocas de vilã teatral que descreditam a interpretação para o cinema.

Completando o trio de protagonista, Eric Bana (Hulk) é o lado fraco da corda. Ele parece não acreditar no próprio papel e ainda participa das (únicas) piores cenas de ação do longa, com lutinhas coreografadas que dão vergonha alheia.

Um vômito de elementos da cultura pop com pitadas rúdicas, Hanna tem seus defeitos, mas é incrivelmente divertido, infame, bobo, cheio de ação e com uma jovem que carrega a responsabilidade de gente grande. Saoirse “Lola Run” é tudo que o filme precisava para dar certo.

Resta torcer para que ele se sobressaia, junto ao público internacional, ao seu marketing fraco e equivocado, que fez com que o filme não fosse tão bem quanto poderia nos EUA.

Trailer:

(idem, EUA/Inglaterra/Alemanha, 111 minutos, 2011)
Dir.: Joe Wright
Com Saoirse Ronan, Cate Blanchett, Eric Bana
Nota 6,5

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Crítica: The Troll Hunter


Legal demais este tal de The Troll Hunter (Trollgeren, 2010), filme norueguês que tem rendido ótimas críticas e feito bastante sucesso nos festivais de fantasia por aí.

É mais um representante do cinema de fantasia atual, que usa das artimanhas do mockumentary para impressionar o público. Mais claramente, tem suas influências em A Bruxa de Blair, Cloverfield e [REC], mas também tem um quê de Distrito 9, Monsters e até Onde Vivem os Monstros.

A desculpa é a mesma de [REC]: grupos de estudantes de jornalismo resolvem seguir um suposto caçador de ursos descredenciado para tal atividade, a fim de saber porquê e para quem ele está fazendo aquilo. Descobrem que o sujeito é, na verdade, um caçador de trolls, seres fantásticos que todo nerd conhece, de quase todo livro do gênero lançado depois de O Senhor dos Anéis.

Depois de convencer o caçador a deixá-los acompanharem uma das caçadas, o grupo se infiltra em florestas e cavernas, em busca de encontrar os tais seres que, diferentemente de Cloverfield, não ficam só na promessa e aparecem diversas vezes, num trabalho espetacular da equipe de efeitos visuais, que teve peito suficiente para encarar o desafio e construir inúmeras cenas com uma perfeição capaz de concorrer com os efeitos multimilionários hollywoodianos – e olha que estamos falando aqui de uma produção que custou o equivalente a apenas 3,5 milhões de dólares.

Ao contrário do que muito crítico tem escrito, esta não é a estreia de André Ovredal na direção – ele já havia dirigido um outro longa em 2000, chamado Future Murder. Mas é bem verdade que esta aqui pode servir como sua revelação; não só como diretor, mas também como roteirista. Mesmo partindo de premissas batidas e utilizando recursos igualmente batidos, ele leva o filme a sério, se preocupa em elaborar as motivações e explicações da história e em não idiotizar os seus personagens.

Tudo bem que o elenco não é uma maravilha, mas pelo menos os tremeliques da câmera na mão e as inúmeras cenas noturnas ou de imagens que simulam visão esverdeada (para filmar no escuro) nos poupam da aproximação das suas expressões pobres.

Trata-se de uma iniciativa corajosa, vinda de um país cujo cinema não tem nem tradição e nem dinheiro. Felizmente, sua bilheteria em casa já foi suficiente para pagar as contas e o êxito do falatório já foi suficiente para garantir distribuição em mais alguns outros países. Que sirva de estímulo para outros criativos mundo afora.

Trailer:

(Trolljegeren, Noruega, 100 minutos, 2010)
Dir.: André Ovredan
Nota 8,5

Crítica: A Árvore da Vida


O hypado diretor Terrence Malick estreou em Cannes o seu (apenas) quinto longa, em mais de três décadas de carreira. Conhecido pelas excentricidades, por ser antissocial e genioso, não compareceu ao festival, que mesmo assim não deixou de agraciá-lo com a Palma de Ouro. Mas desta vez o diretor não foi unanimidade. Agraciado fervorosamente por uns e depredado por outros, levou o prêmio na base da polêmica. Ou talvez pelo medo do júri em dizer que o filme é simplesmente ininteligível. Sim, porque é de duvidar que todos tenham entendido a mensagem.

Feito para poucos, frustará aqueles que irão ao cinema por se tratar de um filme com Brad Pitt. Estes sairão logo no início da sessão. Talvez felizmente, porque são os primeiros trinta minutos os melhores do filme. É quando Malick explora imagens em alusão ao Big Bang e ao paraíso ou à dor dos pais pela perda de um filho.

Os pais, no caso, são interpretados por Brad Pitt e Jessica Chastain. Jessica é uma revelação, além de ser dona de uma beleza ímpar. Pitt é regular, como um pai extremamente autoritário, que dá aos filhos uma educação calcada em dois princípios: o religioso e o machista. Sua mulher e seus filhos têm para com ele uma relação de submissão, que beira a humilhação, nos padrões de um império do medo. Assim, os filhos têm no aconchego da mãe (e só durante a ausência do pai) a sua válvula de escape.

Além deste tempo e da atemporalidade das imagens abstratas, acompanhamos, por mais que infimamente, um dos filhos do casal, já mais velho, vivido por Sean Penn, ainda tentando cicatrizar as feridas do passado. O que pode frustrar a maioria é que os três tempos não tem, na verdade, amarras. São independentes entre si e podem ser interpretadas ao gosto do espectador. Isto pode ser bom, para quem não se incomode com o fato.

A cinematografia do sublime, dotado de um experimentalismo calculado e as visões apocalípticas plásticas e conceituais são o grande trunfo do longa. Um espetáculo que só poderá ser realmente apreciado numa (boa) sala de cinema. A câmera, nas sequências que acompanham a família, é completamente livre, quase desgovernada e o que impressiona é que nem por isso são menos belas.

Confesso que pelo menos através destas cenas pude sentir – mais do que refletir sobre – esta angústia dos pais. Pensando assim, tive uma ótima experiência sensitiva. Não tão impactante quanto o Koyaanisqatsi de Godfrey Regio, mas ainda assim válida. Só agradeceria se uns tais sussuros fossem retirados, pois os mesmos têm o efeito de um arranhar de quadronegro, com umas unhas bem compridas. E, apesar de ser a favor de histórias abertas, desta vez eu senti falta de uma explicação. Com um espírito filosófico talvez eu pudesse encontrar a mesma.

O diretor de fotografia Émmanuel Lubezki declarou à Cahiers du Cinema que a versão em blu-ray pode trazer um corte do diretor, com seis horas de duração. Isso porque Malick tinha inicialmente oito horas de filmagens nas mãos e teve que cortar seis delas para a versão dos cinemas. Com elas foi-se também a história do personagem de Sean Penn, que originalmente teria a mesma atenção que a do personagem de Brad Pitt, mas que no fim ficou com cerca de dez minutos. Das duas uma: ou as partes que faltaram para entender qual era a intenção do diretor estarão nesta nova versão ou confirmar-se-á que o projeto não tem realmente um nexo. Agora é pensar se ainda valerá a pena pagar para tirar a prova.

Trailer:


(The Tree of Life, EUA, 138 minutos, 2011)
Dir.: Terrence Malick
Com Brad Pitt, Jessica Chastain, Sean Penn
Nota 7,0
Estreia no Brasil: 12 de agosto

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crítica: Incêndios

Os primeiros dez minutos desta coprodução Canadá-França já prendem a atenção de cara e expõe exatamente a situação do que veremos a seguir. Os irmãos gêmeos Jeanne e Simon estão em frente a um notário amigo da família, que em seguida lerá o testamento da mãe deles, que morrera há pouco tempo. Os desejos não são como o esperado. A mãe só gostaria de ser enterrada em caixão, com lápide e etc depois que os filhos cumprirem seu último desejo.

É então que o notário entrega uma carta para cada um dos filhos. A primeira deve ser entregue ao pai, que eles nunca conheceram. A segunda, a um outro irmão, que eles nunca souberam da existência. A intenção da falecida é que, desta forma, os filhos a ajudem a cumprir sua tarefa no mundo e que, através disso, tomem consciência do passado da mãe. Os filhos precisam, então, sair do Canadá e partir para o Líbano, onde a mãe viveu no período da Guerra do Líbano.

Através do simples recurso de subtítulos garrafais em vermelho, a história é dividida e contada, passo-a-passo, alternando presente e passado, revelando a vida trágica daquela mulher, cujo mote para continuar era exclusivamente o amor pelos filhos.

A mãe é interpretada por Lubna Azabal, uma atriz belga que vem se destacando por seus últimos papéis, em filmes como Coriolanus e Here, ambos exibidos no Festival de Berlim deste ano. Lubna é destas atrizes que passam segurança e é dona de uma expressão incrível.

O fato dos filhos terem que sair do Ocidente para conhecer o passado da mãe no Oriente possibilita o desenvolvimento de um choque de culturas e histórias, de expor os motivos da imigração de libaneses para o Canadá – sem ser generalista – e expor a inocência ignorante dos jovens “livres” com relação a uma realidade e cultura totalmente diferente da deles, de um país que ainda luta para ser livre, cujas raízes societárias ainda são repressoras.

Mas críticas diretas às religiões – católica e islâmica, em questão – são evitadas, como um sinal até mesmo de respeito por ambas, fazendo-as como apenas mais uma característica cultural dos povos. O mesmo acontece com a guerra, exclusivamente um pano de fundo. Não existe a intenção de explicá-la. Ela é, também, só mais uma coadjuvante diante da história do núcleo familiar, que é o que realmente importa para o diretor Dennis Villeneuve (Polytechnique).

O roteiro não poderia ser mais comum, pois não é de hoje que vemos tramas em que filhos vão em busca do passado dos pais. Mas há algo de muito forte e especial neste caso que, se não fosse tratado com muita dedicação do diretor, poderia parecer uma novela mexicana. O final, arrebatador, só vem para confirmar o que já se suspeitava no decorrer da projeção: existe algo de extremamente forte e absurdo na vida daquela mulher e que mesmo assim o sendo, é extremamente verossímil. O choque é inevitável e demora a passar.

Trailer:

(Incendies, Canadá/França, 130 minutos, 2010)
Dir.: Dennis Villeneuve
Com Lubna Azabal, Rémy Girard
Nota 9,0

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Crítica: Tucker and Dale Vs Evil

Isto é o que todo diretor deveria pelo menos tentar fazer. Um filme que se assume como tosco e não pretende ser levado a sério em momento algum. Os elementos tradicionais do “terrir” estão todos lá: a dupla de alívio cômico, os adolescentes estúpidos e a mocinha que de nada sabe sobre o que está se passando.

Assim, parece só mais um filme de terror bobo. Tá, bobo ele é, mas é feito com toda inteligência e criatividade para subverter o próprio gênero. Ao invés de um serial killer ou um monstro que persegue e mata um a um, há apenas a imaginação de cada personagem. É esta imaginação – bem burra, diga-se de passagem – que levará vários deles à morte.

Tucker e Dale são dois caipiras em busca de férias tranquilas, regada a cerveja e pescaria num vale. A paz dos dois termina assim que eles conhecem uma turma de jovens que desejam acampar e também se divertir nas redondezas. Ponto. Não procurem saber mais do que isso, pois a graça de descobrir como se desenrola esta trama divertida pode ser perdida.

Este é um produto tão rude que seria de se duvidar que funcionaria, mas isso ele o faz de maneira muito especial. Talvez pela sua despretensão. Tão inocente quanto o seu personagem principal, Dale, um dos caipiras mais simpáticos que o cinema já teve, interpretado pelo Tyler Labine, um gordinho com cara de ursinho carinhoso que consegue a química perfeita tanto no bromance que vive com o parceiro Tucker (Alan Tudyk) quanto o romance desengonçado com a mocinha (a convincente Katrina Bowden).

O filme só estreou em alguns poucos países e tem estreia marcada nos EUA para o fim de setembro. Absurdamente, não tem data de estreia até hoje em seu país natal, o Canadá. Daí se percebe a luta de Davi contra Golias que enfrentam os filmes indies hoje em dia. Tem que torcer para que ele faça nos esteites o mesmo (relativo) sucesso que fez na Alemanha e na Rússia, tendo assim mais chance de chegar a outros mercados, porque este é imperdível.

Trailer:

(idem, Canadá, 89 minutos, 2010)
Dir.: Eli Craig
Com Tyler Labine, Alan Tudyk, Katrina Bowden
Nota 8,5

terça-feira, 26 de julho de 2011

Crítica: Amores Imaginários

Para aqueles que duvidaram do talento do jovem Xavier Dolan – quando ele, aos 19 anos, dirigiu seu primeiro e ótimo longametragem Eu Matei Minha MãeAmores Imaginários vem para confirmar que a estreia não era apenas sorte de principiante.

Aqui, Xavier volta também como protagonista, roteirista e produtor da história de um triângulo amoroso adolescente. Marie (Monia Chokri) e Francis (Dolan) são amigos há algum tempo, mas descobrem-se apaixonados pelo mesmo sujeito, Nicolas (Niels Schneider), que torna-se amigos de ambos, mas o encanto que causa pode deixar marcas nas diferentes relações existentes no triângulo.

Se no primeiro filme Xavier tentava “exorcizar” os fantasmas da conturbada relação com a mãe, desta vez ele se aprofunda na fase seguinte. Seu novo personagem, aparentemente independente, precisa resolver seus problemas e dúvidas emocionais para não acabar com as amizades construídas. O mesmo vale também para Marie, que encontra-se na mesma situação do amigo. A dor, o desejo, a esperança, a paixão, o ciúme e a decepção são os principais elementos a serem explorados e/ou exorcizados.

Amores Imaginários não só é um retrato de uma fase mais madura da juventude (mas ainda com hormônios e sentimentos à flor da pele), como também é o retrato de uma classe burguesa, idêntica em qualquer canto do mundo e perdida entre o dinheiro, a luxúria e a inutilização do conhecimento a que se tem acesso. São jovens inteligentes, de certa forma conscientes, mas cegos e concentrados apenas em sua aparência e satisfação de desejos.

Todas estas questões são tratadas pelo diretor de atuais 21 anos com uma verossimilhança impressionante, conferida pelo seu talento em transformar elementos declaradamente biográficos em ficção. Até as surpresas do seu roteiro de interessantes diálogos são construídas com cuidado. O encanto do trio não nos deixa ver fatos óbvios que, quando revelados, tornam-se surpresas para os personagens e para os espectadores, assim como a cegueira de amor da realidade.

Para além do roteiro, Xavier utiliza muito bem os recursos de linguagem e consegue brincar com eles sem se atrapalhar. Influências de Tarantino na trilha sonora e Almodovar nos cenários e figurinos retrôs são bem empregadas e quando mescladas com o experimentalimo fotográfico constante – enquadramentos não-convencionais, colorização e iluminação que varia entre uma infinidade de cores quentes – criam um universo único, que ele parece ter bem decidido em seguir sua carreira acompanhado por eles. O único elemento que incomoda são os insistentes zooms nas sequências de depoimentos de atores sociais forjados contando suas experiências amorosas frustradas.

A outra (e talvez a maior) influência deste filme é Os Sonhadores, de Bernardo Bertollucci, clara desde o começo e escancarada no minuto final, com uma sacada interfílmica muito bem humorada.

Com apenas dois longas no currículo, Xavier Dolan já mostra que sabe o que quer. A expectativa quanto aos seus filmes, por isso, só aumenta. Vamos ver agora o que ele fará com sua próxima história, Laurence Anyways, sobre o amor impossível entre um homem e uma mulher depois que ele decide mudar de sexo (!).

Trailer:

(Les Amours Imaginaires, Canadá, 95 minutos, 2010)
Dir.: Xavier Dolan
Com Xavier Dolan, Monia Chokri, Niels Schneider
Nota 9,0

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Crítica: Vejo Você no Próximo Verão


A estreia de Phillip Seymour-Hoffman na direção poderia ser badalada, mas o ator ganhador do Oscar por Capote preferiu começar sem megalomanias e escolheu a peça “Jack Goes Boating”, de Robert Glaudini (que também assinou a adaptação do roteiro), para fazer seu debut.

Inicialmente apático, Phillip emprega ritmo e simpatia só perto do fim dos 90 minutos de película. O tema é a reviravolta na vida de um homem (interpretado pelo próprio diretor) que, depois de sucessivos fracassos, resolve iniciar aulas de natação e culinária, buscando novas motivações. Conhece uma mulher (Amy Ryan) tão fracassada quanto ele e então começa aí um novo relacionamento.

O que Hoffman faz chega a ser cruel: paralelamente ao relacionamento que se inicia, insere um outro casal, em crise após de anos de convivência, e faz então uma comparação entre os casais. O casal de amigos em crise até poderia servir de modelo sobre “como não levar uma relação”, mas compará-los, como se os casos estivessem no mesmo patamar depressivo, é injusto e enfraquece todo e qualquer argumento.

Enquanto demonstra que domina a técnica, fazendo uma ótima decupagem, variando a movimentação de câmera – num ótimo trabalho de fotografia de W Mott Hupfel III, que já havia fotografado Hoffman em The Savages – e usando suaves (e bonitos) recursos de montagem (como as inserções de vislumbramentos nas cenas da piscina), Phillip fica aquém justamente naquilo que mais poderia se esperar dele: a direção do elenco.

Ator de talento reconhecido, não consegue domar um elenco fraco e sem química e acaba dominando a cena sozinho (mesmo estando aquém de outros papéis seus), quando o que o roteiro mais pedia era interação e entrega dos quatro vértices da história.

Para piorar, só mesmo uma trilha sonora depressiva, de boas composições da cena indie, mas só leva a história ainda mais para baixo. Não que um filme deprê não possa ser bom – aliás, geralmente são eles os mais inspirados – mas a ausência de momentos de respiro sufoca. Nem parece que estamos vendo uma história com dois lados de um relacionamento. Bastava uma pitadinha de otimismo e romantismo para o casal apaixonado, que o belo jantar que Hoffman preparava – no filme e na direção – não esturricaria a ponto de não ser comido.

Trailer:

(idem, EUA, 93 minutos, 2010)
Dir.: Phillip Seymour Hoffman
Com Phillip Seymour Hoffman, Amy Ryan, Daphne Rubin-Vega
Nota 5,0

sábado, 16 de julho de 2011

Crítica: Biutiful

Em novela mexicana, quanto mais trágica é a vida do(a) mocinho(a), melhor. Parece que Alejandro Gonzalez Iñarritu confundiu os nichos e levou esse lema para o cinema, com seu novo longa, Biutiful.

O diretor de Babel, 21 Gramas e Amores Brutos – todos de roteiros complicados e resolvidos com originalidade – desta vez resolveu assinar também a história do seu filme, mas não alcançou tanto êxito quanto na direção.

O enredo de Biutiful sofre pelos excessos. São duas horas e vinte minutos de muita, mas muita tragédia. Uxbal, personagem de Javier Bardem, é um homem que descobre que é portador de um câncer maligno, sem possibilidades de operação. Só lhe restam alguns meses de vida. É então que ele fará o possível para deixar mulher e filhos numa situação confortável. Acontece que a mulher é toda problemática e não se sabe se ela tem condições de criar os filhos.

Mesmo com esta nobre e evidente preocupação, Uxbal sofre com uma realidade cruel que o destitui da capacidade de amar e de perdoar. Acentuando o mergulho depressivo que o personagem faz, Iñarritu tece um retrato da sociedade marginal de Barcelona, com o ciclo de drogas, os imigrantes desesperados, a miséria. Pode ser um panorama fiel à realidade, mas tudo num só filme vira uma tragédia. Melhor seria se a história se concentrasse no pequeno núcleo que cerca o protagonista. Toda a história de contexto e dos imigrantes fica ali, quase solta, com pouca influência direta na história. A impressão é de que há uma necessidade enorme de mostrar que tudo está acabado e só alguns poucos trilharão um caminho de redenção.

Mas é claro que nem tudo é perdido e, mesmo com vários minutos excessivos de película, Iñarritu conta bem a história de Uxbal, numa atuação poderosa de Javier Bardem, ator espanhol que já conseguiu a façanha de ser indicado três vezes ao Oscar e que demonstra uma capacidade de mutação ímpar. É bonito ver a sua constante metamorfose. É muito fácil ter raiva e compaixão e sofrer com o seu Uxbal.

Para alguém com o currículo do Iñarritu, esta não é uma grande obra. Mesmo assim, é acima da média dos dramas que vemos por aí.

Trailer:

(idem, México/Espanha, 148 minutos, 2010)
Dir.: Alejandro González Iñarritu
Com Javier Bardem
Nota 7,5
 
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