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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Crítica: Oceanos


Oceanos é o terceiro documentário lançado pela Disneynature, parte do conjunto de filmes que intencionam mostrar os patrimônios naturais da humanidade e alertar o público para a necessidade de sua preservação.

O primeiro, Terra, foi lançado há cerca de um ano no Brasil e fez relativo sucesso de público e crítica. O segundo, Balé Vermelho, foi lançado diretamente em dvd, infelizmente.

Para dirigir este terceiro documentário foram escalados Jacques Perrin e o codiretor Jacques Cluzaud, que assinaram estas mesmas funções em Migração Alada, que dissertava sobre a rota de migração dos passáros e foi vencedor do Oscar de melhor documentário em 2002. Ambos especialistas em filmagens em situações extremas.

Como fica evidente pelo título, Oceanos retrata a vida marinha, boa parte apenas ao som de uma trilha orquestrada e vez por outra, com texto que fala sobre a necessidade de se preservar os ecossistemas marinhos.

Narrações piegas e desnecessárias à parte – desnecessárias porque não acrescentam em nada à reflexão e à conclusão que já se tira só de ver as imagens – o que se vê na telona é um show de filmagens, com câmeras em posições e lugares inimagináveis. Uma gama de recursos técnicos que impressiona. São cardumes gigantescos, arraias, golfinhos, baleias, tartarugas e um monte de outras espécies bizarras e igualmente belas.

É como uma sessão do sublime, um momento para meditar e refletir sobre o mundo em que vivemos. Um mergulho em cores e texturas, que aliados a um trabalho estupendo de captação e edição de som formam um conjunto audiovisual cuja beleza “salta aos olhos”.

No entanto, este é um documentário de linguagem simples, pensada para atingir um público maior e talvez por isso a narração redundante se faça necessária, mas Impressionen Unter Wasser (documentário de 2002, dirigido por Leni Riefenstahl), por exemplo, produz o mesmo efeito, só com sons e imagens, sem a necessidade de verbalizar-se.

Apesar de ser distribuído pela Disneynature, Oceanos é uma coprodução francesa com a Suíça e a Espanha.

Ainda que não possua o impacto de Terra, é uma obra que vale a pena ser vista em tela grande, com suas imagens inacreditáveis, que mais parecem esculpidas num CGI (computação gráfica) de última geração. 

Trailer:


(Océans, França/Suíça/Espanha, 100 minutos, 2009)
Dir.: Jacques Perrin
Nota 7,5

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Promoção: Tron - o Legado

Depois de algum tempo em jejum, voltarei a sortear ingressos e brindes para vocês, meus queridos leitores.

Dessa vez serão sorteados quinze (15) pares de ingressos para o mais novo filme Disney, “Tron – o Legado”, que estreia em todo o Brasil nesta sexta-feira (17/12). Além dos ingressos, os sorteados que residirem em Brasília poderam também ganhar outros brindes, como chaveiro, camiseta e pulseira.

Os ingressos são válidos de segunda a quinta-feira, exceto feriados, a partir do dia 27 de dezembro. Não é válido para salas 3D, IMAX, salas de cinema do Grupo Araújo, do Grupo Estação, Cinemark Iguatemi São Paulo e Salas Vips do Cinemark Cidade Jardim, Kinoplex Park Shopping Platinum e Kinoplex Vila Olimpia Platinum.

Para participar, basta responder corretamente à pergunta: “Em que ano foi lançada a primeira parte de Tron?”

Não esquecendo de que é imprescindível deixar a resposta num comentário deste post, juntamente com seu nome e sobrenome, e-mail e endereço completo (com CEP), para que os ingressos sejam enviados assim que o sorteio for realizado. Nenhum dado fornecido será divulgado, exceto o nome e a cidade dos sorteados.

A promoção é válida até às 21 horas do dia 19/12 (domingo) e o resultado será divulgado no dia seguinte.

Boa sorte a todos!

Promoção encerrada

Sorteados:
1- Bruno Cezar Varoto (Juiz de Fora/MG)
2- Mariana Lourenço (São Vicente/SP)
3- Maja Straakder (Curitiba/PR)
4- Gloria Luiza Coutinho (Caxias do Sul/RS)
5- Juliana Melo Pereira (Recife/PE)
6- Charles Gley da Silva (Natal/RN)
7- Daniela Bitner (São Paulo/SP)
8- Alexsander Bruce Posso (Atibaia/SP)
9- Daniela Fernandes (Mauá/SP)
10- Alexandre Luis Janicsek (Porto Alegre/RS)
11- Carolina Lopes Durce (Águas Claras/DF) - ganhou também uma camiseta e chaveiro
12- Desiree Barbosa (Campinas/SP)
13- Naiara Cristina da Costa (Ceilândia Sul/DF) - ganhou também uma camiseta e pulseira
14- Angélica Rosa (Niterói/RJ)
15- Alex Gonçalves (Santo André/SP)
 


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Curta: La Maison en Petit Cubes

A depender do seu estado de espírito neste momento, “La Maison en Petit Cubes” pode te levar às lágrimas em apenas alguns minutos.

O curta japonês tem como personagem principal um senhor solitário, que vive num pequeno quarto ameaçado pelo nível do mar, que não para de subir há algum tempo submergira toda uma cidade.

A recapitulação de toda uma vida é feita de maneira ímpar pelo diretor Kunio Katô, que tem nesta uma obra triste, mas de imensa beleza. A trilha sonora é outro primor.

Não foi à toa que o curta ganhou o Oscar de melhor curta de animação em 2008.



(Tsumiki no ie, Japão, 12 minutos, 2008)
Dir.: Kunio Katô
Nota 10

sábado, 11 de dezembro de 2010

Crítica: Tetro

Francis Ford Coppola já foi diretor cultuado por público e crítica, mas nas últimas duas décadas seus (poucos) filmes foram ignorados por ambas as partes, o que é justificável pela força perdida do diretor. “Tetro” é sua tentativa (?) de renovar a própria obra.

Realizado em formato melodramático clássico, o filme evoca esta atmosfera, mas não consegue emaná-la.

É um longa sobre dois irmãos: Bennie, um jovem servidor de um navio, e Tetro, outrora Ângelo, escritor fracassado que se mudou há dez anos para Buenos Aires, fugindo da sombra do pai, famoso maestro de ópera em Nova Iorque. A grande diferença de idade entre eles faz com que Bennie procure em Tetro explicações para o seu passado e o passado da família, mas Tetro não está nem um pouco disponível para fornecer informações.

Invertendo os tradicionais papéis da fotografia, Coppola utiliza o preto-e-branco para representar o presente e o colorido para representar o passado, como se o que se foi fosse mais feliz do que o que é, o que não é verdade, já que ambos os tempos do filme são dolorosos. A única vantagem nesta utilização é que a predominante fotografia P&B concede charme à história.

Ademais, Coppola escolhera um elenco duvidoso, cujas boas escolhas se concentram apenas no elenco latino, liderado por Maribel Verdu (“E Sua Mãe Também”) e Carmem Maura (“Valentin”). A primeira está revigorante e muito à vontade, enquanto que a segunda, apesar de entregar uma interpretação dura, bem diferente da maestria que demonstra nos filmes de Almodóvar (por exemplo), segura bem as pontas.

Já a dupla Vincent Gallo e Alden Ehrenreich, que interpretam os irmãos protagonistas, estão tão apáticos que seus trabalhos me foram indeferentes.

O clima de melodrama está mais para piegas do que para classicista e por vezes, o diretor parece não levar à sério o próprio trabalho, como se zombasse daquilo que fez. É estranho, pois, que um roteiro que seria muito bem aproveitado por um Almodóvar, torne-se um drama tão exagerado nas mãos deste outro mestre.

“Tetro” tem cara de clássico, final de clássico e diretor de clássicos. Nem por isso chega a ser um clássico. E Coppola por Coppola, eu tenho preferido a Sofia.

Trailer:

(idem, EUA/Itália/Espanha/Argentina, 124 minutos, 2009)
Dir.: Francis Ford Coppola
Com Vincent Gallo, Maribel Verdu, Carmem Maura
Nota 6,0

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Crítica: Enterrado Vivo

A abertura incisiva sob trilha sonora hitchcockiana já demonstra a vontade da produção de Enterrado Vivo: o desejo de torná-lo um clássico.

De equipe majoritariamente espanhola, o filme conta com apenas um ator em cena, o qual foi escolhido dentre os hollywoodianos da moda: Ryan Reynolds, provavelmente responsável por boa parte dos gastos do orçamento desta (aparentemente) pequena produção.

A escolha por um ator norteamericano justifica-se pelo roteiro: Paul Conroy é um motorista de caminhão, enviado por sua empresa para trabalhar no Iraque, fornecendo equipamentos de cozinha para vilarejos da região.

O filme se desenvolve completamente em um único cenário, se assim podemos chamá-lo: um caixote de madeira. É lá que somos jogados, junto com o protagonista, numa batalha claustrofóbica contra o relógio e condições ínfimas de sobrevivência.

Após alguns momentos iniciais de completo breu e apenas o som de uma respiração, voltamos a enxergar através do isqueiro que Paul encontra no caixão. Ele fora enterrado vivo, mas as razões para tal serão fornecidas aos poucos, tanto para ele quanto para nós, público. Ele contará com este isqueiro, um celular e cerca de 90 minutos de oxigênio no local, para tentar se salvar.

À exceção do fato que seria quase impossível um celular funcionar embaixo de alguns metros de terra, os argumentos restantes são e conseguem tornar crível a história – e mesmo a questão “funcionamento do celular” pode ser perdoada, pois não se sabe qual a profundidade que se encontra o caixote. Além, a inclusão do fator político faz toda a diferença para o conteúdo intelectual, que consegue fazer até crítica e/ou denúncia (?) social.

A movimentação de câmera foi um desafio à parte e a equipe de fotografia teve que se virar para fazer uma boa decupagem e variar os ângulos e luzes, impedindo o tédio de impregnar visualmente a obra. Algumas movimentações são impressionantes e a iluminação é excelente. Mesmo os muitos planos-detalhe e closes são bem pensados, o que desperta a curiosidade dos cinéfilos mais atentos tecnicamente, pois é difícil imaginar como foi realizado este trabalho em tão pouco espaço.

A atuação de Ryan Reynolds é aceitável, mas é nítido que outros atores fariam melhor que ele. Pelo menos ele segura bem as pontas.

Muitas perguntas e possibilidades passam na cabeça de Paul e de quem o assiste, causando a intriga que nos mantém vidrados em cada momento da película, causando expectativa para o final, que quando chega, não decepciona e ainda é abusado ao mostrar, através de recursos de linguagem, uma outra possibilidade, que inclusive justifica a escolha pelo final verdadeiro.

Só não dá para entender a escolha da música horrível e totalmente anticlímax dos créditos finais, mas neste momento a história já acabou e o melhor é deixar logo a sala de cinema, antes que a malfadada tire o brilho do filme.

Pequenos problemas logísticos à parte, Enterrado Vivo consegue atingir um ótimo nível de suspense e causa o impacto desejado. Se tornar-se-á ou não clássico, o tempo dirá.

Trailer:

(Buried, ???, 90 minutos, 2010)
Dir.: Rodrigo Cortés
Com Ryan Reynolds
Nota 8,5

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Crítica: Machete

Quando Robert Rodriguez e Quentin Tarantino lançaram seu projeto comum, Grindhouse, algo chamou tanto a atenção dos fãs quanto os próprios filmes (Planeta Terror e À Prova de Morte) que compunham o projeto: era o falso trailer que os precedia, Machete.

Com um nome cujo significado é “facão”, o personagem incorporado por Danny Trejo tornou quase uma lenda instantânea. Rodriguez decidiu então levar a história a sério e rodar este longametragem, com status de filme cult e contando com um elenco estelar, que inclui Robert de Niro, Jessica Alba, Michelle Rodriguez, Lindsay Lohan e a participação mais que bem-casada de Steven Seagal, o rei dos filmes “B” de ação.

Como o antiherói em questão é de nacionalidade mexicana, os roteiristas Rodriguez (Robert e Álvaro) resolveram contextualizar a história com o assunto que mais tange a relação entre México e EUA: a imigração. A mesma, clandestina ou não, interessa a alguns (empregadores em busca de mão-de-obra qualificada e barata), mas causa desdém nos norteamericanos nativos, o que faz com que o governo use a “perseguição” aos chicanos como plataforma política.

Após ser perseguido por um traficante de drogas, Machete (Trejo) aceita o trabalho sujo de matar um senador corrupto (Robert de Niro, ótimo e bonachão como sempre). Para isso, contará com a ajuda de um padre (Chech Marin), uma socialite especialista em manuseio de armas (Lohan) e uma misteriosa mexicana vendedora de nachos (Rodriguez). Para perseguí-lo, temos o próprio traficante (Seagal) e uma fiscal de imigração (Alba).

À vontade como Machete, Danny Trejo dá conta do recado e se sustenta bem como protagonista, mas a opção (ou não) do diretor por abandonar o espírito trash cômico do falso trailer e assumir uma versão socialmente crítica e partir para a ação sanguinolenta acabaram por tirar um pouco da graça que havia na tosqueira proposta anteriormente.

É claro que as escolhas não foram em vão. O filme chega aos cinemas encorpado, mais denso e com muito sangue e cabeças decepadas para agradar aos fãs do gênero. Sequências infames e totalmente inverossímeis já nascem antológicas, como a do hospital e a da freira – não digo do que se trata, para não tirar a graça. Mas, pelo seu todo, não parece ser do tipo que fará nerds vibrarem como Planeta Terror e À Prova de Morte fizeram.

É um bom filme, com bons roteiro, direção e elenco, mas faltou um pouco de tempero (leia-se graça) para o caldo ficar completo.

Trailer:

(idem, EUA, 105 minutos, 2010)
Dir.: Robert Rodriguez e Ethan Maniquins
Com Danny Trejo, Robert de Niro, Steven Seagal
Nota 7,0
 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Vivendo o outro lado da moeda

Pode parecer estranho para alguns, mas para mim é ótimo ser crítico e produtor ao mesmo tempo. Enquanto dedico boa parte do meu tempo para escrever sobre os filmes dos outros, vez por outra me deparo com uma crítica de algum curta meu.

Acho fascinante como um filme, depois de finalizado e exibido, pode ser interpretado de diversas formas. Para mim, este é um dos grandes baratos da sétima arte.

Após o término do Festival de Brasília deste ano, onde um dos curtas que produzi foi exibido, me deparei com uma crítica deste meu curta, chamado “Procedimento Hassali ao Alcance do Seu Bolso”.

A crítica foi escrita pelo Ciro Inácio Marcondes, crítico e professor de História do Cinema da Faculdade IESB e da UnB. Sua compreensão do filme nem sempre é igual à que intencionávamos passar, ao fazê-lo. Mas isso não importa. O mais interessante é saber que, de alguma forma, despertamos reflexão em alguém, através do nosso trabalho. Nós, da equipe do filme, estamos bem felizes com a recepção que o mesmo tem recebido por onde passa. Transcrevo abaixo as palavras do Ciro:

"Procedimento Hassali, mais um filme da boa safra recente da Universidade de Brasília, é um dos falsos-documentários mais espirituosos e argutos realizados em bandas brasileiras. Pode-se dizer até que nosso cinema 'sério' (tipo cinema novo ou retomada) tem uma pegada pelo épico, pelo trágico, pelo drama. Nosso cinema desprezado (tipo chanchadas ou embrafilme) tem uma pegada pelo deboche, por uma anarquização esculhambada tipicamente brasileira, um bas-fond do estado cinematográfico das coisas. Hassali tem essa última pegada, meio aloprado e marginal, travestido de caretice e 'informação que você pode confiar'.

Assim, numa linguagem perfeitamente jornalística (de almanaque) e com um compromisso documental estilo 'Globo Repórter', somos levados a dezenas de entrevistas a respeito do fenômeno do tal procedimento, que consiste em religar organicamente pais e filhos através de um cordão que sai dos dentes. O absurdo da popularização deste fenômeno vai sendo contado com a eficiência de um jornalismo documental 'ético e comprometido', com planos de transição denunciadores, trilha sonora que dimensiona as emoções, entrevistas com especialistas, pessoas que realizaram o procedimento e o abandonaram, classes sociais distintas, timing de neutralidade, incitação à polêmica e entrevistas calculadamente apressadas, imbecilizantes, pífias.

Diante de uma geração audiovisual aparentemente sem talento para o humor realmente engraçado (já viram os novos programas do Multishow? E da MTV?), os garotos da UnB, num procedimento de negatividade nem tão sutil, acertam em cheio ao virar o jogo contra a estupidez da adesão viral a modas científicas e/ou médicas ignóbeis e sem sentido, assim como ao criticar a suposta neutralidade e incapacidade crítica do jornalismo televisivo e do documentarismo tradicional em geral. Assim como em tantos documentários que vemos por aí, os personagens de Procedimento Hassali nada têm (às vezes literalmente) a dizer, e nesse vazio é que encontramos espaço para o humor e, consequentemente, ao comentário social sagaz."

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Crítica: A Rede Social


Mark Zuckerberg criou o Facebook em 2004, com investimento inicial de mil dólares. Em pouco tempo, o site adquiriu notoriedade na internet e se tornou a maior rede social do mundo, atualmente com mais de 500 milhões de pessoas inscritas. Só isso já daria um filme, mas o que o livro “The Accidental Billionaires” (de Ben Mezrich) revelou foi que havia muito mais histórias e intrigas por trás de tudo isso.

Jovem de apenas 20 anos à época da criação do site, Mark o fez, segundo livro e filme, inspirado numa desilusão amorosa, depois da qual passara uma noite embriagado criando um site específico para alunos da Universidade de Harvard, onde estudava, que obteve mais de 20 mil acessos em duas horas, gerando pane nos servidores da universidade, chamando a atenção dos superiores e de dois irmãos ricos (Winklevoss) à procura de um programador para um projeto deles.

Com uma ideia ainda maior em mente, Mark aceita o convite para trabalhar com os irmãos Winklevoss (gêmeos, ambos interpretados por Armie Hammer), mas não conclui o trabalho que se comprometeu a fazer e pior, registrando o Facebook em seu nome, com a ajuda do amigo Eduardo Saverin (cofundador do site), o que gerou um processo milionário contra ele.

O que Aaron Sorkin (roteirista também de “Jogos do Poder”) fez foi pegar esta história – extremamente atual e ainda obscura e incompleta – e ater-se a contá-la através da audiência do processo. A partir destas cenas entre os advogados e os envolvidos no caso é que a história vai sendo recapitulada. O problema é que quando se utiliza da visão dos personagens, fatalmente a construção dos seus caráteres será limitada e parcial. Assim, o que vemos na tela são personagens fracos, restritos às denominações de mocinho e vilões.

O roteiro desenvolve bem os diálogos, mas não os personagens e tenta esconder seus defeitos com um falatório sem fim e tem sorte em encontrar apoio na trilha sonora eletrizante e numa montagem eficiente e bastante ágil.

David Fincher (“Clube da Luta” e “Zodíaco”) dirigiu a pulsos firmes esta que era uma produção delicada, passível de muitas contestações por parte dos retratados, inclusive por arriscar-se a denegrir a imagem de um dos mais poderosos sites do mundo.

O elenco é liderado por Jesse Eisenberg (“Zumbilândia”), que pode garantir uma vaga dentre os nomeados para o Oscar, e conta com a atuação elogiosa de Justin Timberlake (“Guru do Amor”) na pele do criador do Napster – um dos principais sites de download de músicas do mundo –, mas quem rouba a cena é Andrew Garfield, que já havia se destacado por sua atuação em “Leões e Cordeiros” e em 2012 ganhará as telas do mundo como o novo Homem-Aranha.

As poucas falhas de “A Rede Social” são mínimas, especialmente se o filme for tido como apenas mais uma história de intrigas e não for levado a sério, como “a verdade sobre os fatos”. Assim, sua história se torna empolgante e gera fascínio. É mais um filmaço para a coleção de um grande diretor.

Trailer:

(The Social Network, EUA, 121 minutos, 2010)
Dir.: David Fincher
Com Jesse Eisenberg, Adam Garfield, Justin Timberlake
Nota 8,5

Crítica: Abutres (Carancho)

Abutres tem uma missão ingrata: representar a Argentina no Oscar 2011 tão bem quanto O Segredo dos Seus Olhos o fez em 2010.

Dirigido por Pablo Trapero (Família Rodante; Leonera), o filme retrata a rotina dos médicos plantonistas de rua e dos chamados “abutres”, profissionais especializados em abordar parentes das vítimas de acidentes, oferecendo-os os seus serviços de consultoria para arrancar um bom dinheiro das seguradoras.

O papel da médica plantonista é exercido por Martina Gusman, que já havia protagonizado Leonera muito bem e repetiu a dose neste longa. O tal abutre é encarnado por Ricardo Darín, o Gerard Depardieu - aquele que aparece em quase todos os filmes franceses - argentino. Os dois personagens têm um envolvimento romântico e é daí que surgem os maiores conflitos da história, pois ao ajudarem um ao outro, ambos podem ter suas carreiras arruinadas. Forma-se então uma balança que cada vez tende mais para este ou aquele lado, podendo levar a lado algum se o amor falar mais – por mais pessimista que isso possa parecer.

Trapero faz uma crítica sem dó ao sistema securitário, mostra-se seguro em sua proposta e faz um filme forte, tenso e intrigante. A boa fotografia conta com uma excelente operação de steadycam, que oferece movimentações que são um deleite para os cinéfilos mais técnicos.

Ao mesmo tempo, uma pós-produção de som maltratada entrega um resultado ruim, com sonoplastia esquisita e falas levemente dessincronizadas em alguns momentos. Mas isso é esquecido à medida que a história se desenvolve e desvia a atenção para si.

Pena que Ricardo Darín, desta vez, não estava em seu melhor momento, com uma atuação preguiçosa. Sua instrospecção é facilmente confundida com má vontade, sendo que sabemos que ele pode muito mais que isso.

Pequenos defeitos à parte, Abutres é um ótimo filme e não interrompe a sequência de bons filmes hermanos a ganharem o mundo. Pode até não conseguir a indicação à estatueta dourada, mas pelo menos os argentinos podem se sentir satisfeitos por terem feito uma boa escolha para representá-los.

Trailer:

(Carancho, Argentina/Chile/França/Coreia do Sul, 107 minutos, 2010)
Dir.: Pablo Trapero
Com Ricardo Darín, Martina Gusmán
Nota 7,5

Valido a inscrição do meu blog ao serviço de Paperblog sob o pseudónimo fredburle  

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Homem-Urso


Werner Herzog rodou este documentário para contar a história de Timothy Treadwell, ambientalista estadunidense famoso por suas palestras em escolas mundo afora, esclarecendo e protestando contra a matança dos ursos pardos.

Durante 15 anos, três meses ao ano, Timothy viveu em meio aos ursos, numa floresta do Alasca. Morreu, juntamente com sua namorada à época, devorado por um daqueles ursos.

Timothy era são e insano, certo e errado, meigo e agressivo, um paradoxo ambulante que desperta amor e ódio no público. Ao mesmo tempo que fazia um trabalho admirável de conscientização e pregava paz, tinha surtos de agressividade; declarava amor aos animais, mas em determinado momento chinga umas moscas com visível ódio; se dizia desapegado das coisas materiais, mas era extremamente vaidoso e se importava muito em como aparecer em frente às câmeras e passar sua mensagem; e por aí seguem uma sequência de boas intenções e incoerências.

Através de depoimentos de familiares, amigos, ambientalistas e médicos-legistas, além de muitas imagens do arquivo pessoal e de trabalho do próprio Treadwell, Herzog mostra que por trás desta história haviam muitas outras questões implícitas, dignas de serem exploradas e vastamente discutidas.

Já realizei algumas sessões deste filme para várias pessoas e sempre, ao término da sessão, a discussão que se inicia e as reflexões que o filme incita em todos duram um longo tempo. O mais interessante é que isto só é proporcionado porque Herzog manipula bem as imagens, mas não se concentra em apenas defender o seu ponto de vista que, sim, lá está em alguns momentos cruciais.

O diretor mostra depoimentos a favor e contra os atos do ambientalista em questão e aproveita alguns momentos para dissertar sobre o uso das imagens, o fascínio de se registrar momentos de pura beleza através de imagens em movimento e também sobre o método que Treadwell utilizava nas filmagens de suas expedições.

À medida que a história do personagem vai sendo aprofundada, aprofundam-se também as discussões e a gama temática só aumenta. Quais são os limites entre o Homem e a Natureza? Até que ponto é saudável o isolamento? O que leva uma pessoa a tomar atitudes extremistas? Estava Timothy certo ou errado? Afinal de contas, ele não morreu feliz? As respostas podem seguir caminhos diferentes, mas estão todas lá e cabe a cada espectador extrair dali o que melhor lhe convir, para formar a sua própria opinião.

A mágica do documentário, neste filme, acontece, graças à história de um louco (ou não) e ao trabalho de um gênio.

Trailer:

(Grizzly Man, 105 minutos, 2005)
Dir.: Werner Herzog
Nota 10

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Crítica: O Garoto de Liverpool


Apesar de não ter alcançado – pelo menos por enquanto – êxito expressivo no cenário comercial, O Garoto de Liverpool tem configurado-se como a principal cinebiografia de John Lennon.

Depois de mais de uma dezena de outros filmes com o astro do rock como epicentro, esta obra emerge sob a promessa de contar “a história não contada” sobre ele. O roteirista Matt Greenhalgh, que também assinou o roteiro do elogiado Control (cinebiografia sobre Ian Curtis, do Joy Division), concentrou a trama na adolescência de Lennon, quando ele tinha dificuldades de integração nos colégios que passou e um relacionamento conturbado com a mãe e com a tia, que foi quem o criou.

O filme inicia-se quando da morte do tio, George, passando pela primeira banda (The Quarrymen), o início de amizade com Paul McCartney (interpretado por Thomas Sangster, o garotinho de Simplesmente Amor), até a ida para Hamburgo, na Alemanha, onde ele iniciou definitivamente a carreira.

Nas mãos da diretora Sam Taylor-Wood, o filme assume contornos sutis e é contado de maneira extremamente agradável, com muita música – não esperem ouvir nada dos Beatles – e ritmo constante, com os seus diversos ápices bem distribuídos, o que não deixa o espectador desviar a atenção do que se passa na tela, do começo ao fim.

Talvez por ser inglês, envolver música e uma história de determinação e crescente alcançar dos sonhos, além do dinamismo da montagem, o filme (estranhamente ou não) guarda suas semelhanças com o excelente Billy Elliot (2001).

Estranha apenas me pareceu a escolha de Aaron Johnson (Kick Ass) para interpretar o protagonista, já que o mesmo não guarda semelhanças físicas e nem entrega um estouro de interpretação que o justificasse como John Lennon. Ele apenas segura bem o rojão, mas fica a impressão de que diversos outros atores fariam melhor.

Continuando uma sequência impressionante de boas interpretações, está Kristin Scott Thomas (Há Tanto Tempo Que Te Amo), esplêndida, com uma segurança que poucos artistas chegam a ter e que cativa e torna densa e absurdamente humana a tia de John Lennon, Mimi, personagem que tinha tudo para ser retratada como a vilã da história, mas o que a motivou é tão plausível e o julgamento, tanto dela quanto dele e a mãe dele, fica aberto a discussões, o que é bastante saudável. Saudável como o desenvolvimento útil e coerente dos personagens que o cercam, não ficando limitado à figura central.

As sequências de transição, regidas por muita música boa, dinamizam a história, que segue numa linearidade paradoxalmente crescente. A vontade de ouví-lo como o famoso John Lennon vai aumentando à medida que ele faz suas descobertas musicais e conhece cada membro da banda, desde os que abandonaram a carreira, até os dois que compuseram os Beatles, Paul Mccartney e George Harrison – Ringo Star não chega a aparecer no filme.

Bem acabado tecnicamente, serve como registro de uma versão dos fatos e uma singela, divertida e interessante homenagem a um dos grandes ícones do rock mundial.

Trailer:

(Nowhere Boy, Inglaterra/Canadá, 96 minutos, 2009)
Dir.: Sam Taylor-Wood
Com Aaron Johnson, Kristin Scott Thomas, Anne-Marie Duff, Thomas Brodie Sangster
Nota 8,5

domingo, 28 de novembro de 2010

Curta: Werner Herzog Come Seu Sapato

No final da década de 70, Werner Herzog estimulou Errol Morris a fazer um filme, pois via naquele então jovem talento para o cinema. A vontade era tanta que Herzog prometeu comer seu próprio sapato se Morris aceitasse o desafio.

Pois bem que fez o tal filme (“Gates of Heaven”), sem dinheiro algum e em 1978, lançou-o em festivais, sendo tido como um dos melhores filmes daquela década. Herzog resolveu então fazer do pagamento da promessa um evento publicitário, como um apelo para que as distribuidoras se interessassem em divulgar o filme do amigo, que poderia facilmente cair no ostracismo, não fosse este seu gesto.

Além de ser um curta que conta esta história, “Werner Herzog Come Seu Sapato” é uma pequena aula de cinema, não pela sua feitura (com direção de Les Blanc), mas pelo que Herzog fala no decorrer da película. Um grande incentivo para aqueles que querem fazer cinema.

Não é à toa que ele foi professor de cinema por muito tempo e é um dos maiores cineastas da história. Minha admiração por ele só aumenta, a cada filme seu que vejo.

Curta na íntegra:

Dir.: Les Blanc
Nota 8,5
 
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