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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Equipe de Tropa de Elite 2 chega a Berlim com status de grandes estrelas

Foto: AP Photo
Depois de fazer história no Brasil e passar no Festival de Sundance (EUA), chegou a vez de Tropa de Elite 2 fazer sua história em terras europeias. Para isso, nada melhor do que começar no Festival de Berlim, onde a primeira parte da história do Capitão Nascimento e cia antingiu seu ápice, levando o Urso de Ouro, prêmio máximo do festival, em 2008.

Recebidos com aura de estrelas em território alemão, o diretor José Padilha e os atores Wagner Moura e Maria Ribeiro concederam sua primeira coletiva de imprensa no salão do Grand Hyatt Hotel, onde só os convidados mais importantes do festival concedem suas entrevistas.

Sem papas na língua, os três falaram sobre a experiência de realizar a maior bilheteria e público do cinema brasileiro, sobre a situação política do Brasil e sobre a carreira internacional do filme.

Padilha agradeceu por ser recebido em Berlim pela terceira vez – a primeira foi em 2008 com o primeiro Tropa e a segunda em 2009 com Garapa – e sua relação com a cidade: “Berlim é muito importante para a minha carreira e mostrar Tropa de Elite 2 aqui é especial, porque este é um festival voltado especialmente para o público e como o berlinense já assistiu o primeiro, pode entender melhor o conjunto dos filmes. Estou ansioso para saber como o filme será recebido hoje à noite”, disse ele, referindo-se à sessão de gala que o filme ganhará, na noite desta sexta-feira, em Friedrichstadtpalast, cujos ingressos já estão esgotados.

Padilha falou também sobre a distribuição do longa no exterior e sobre o modelo de distribuição no Brasil: “Já assinamos com distribuidoras da Alemanha, França e Inglaterra e estamos analisando propostas que recebemos para distribuir o filme nos EUA. Estou feliz que Tropa 2 terá uma distribuição internacional ainda maior que o primeiro. Isso mostra que o êxito não será só o de ter sido maior no Brasil, mas possivelmente também será maior no exterior”.

Foto: AP Photo
Perguntado sobre sua relação com o governo brasileiro e sobre possíveis projetos para mudar as leis de fomento à produção e distribuição no Brasil, Padilha foi enfático: “Não tenho nenhuma relação com o governo brasileiro e não tenho intenção de mudar as leis de cultura estabelecidas; o que intenciono é desenvolver uma forma de distribuir os nossos filmes sem que o lucro das bilheterias fique concentrado nas mãos das majors estrangeiras. Quem assume a maior parte dos gastos com produção no Brasil somos nós, então, nada mais justo do que nós também ficarmos com a parte dos lucros”. “Com a distribuição independente deste filme provamos que isso é possível e um movimento entre alguns cineastas brasileiros está sendo feito, para que a continuidade deste processo seja dada”, contou ele.

Wagner Moura relatou que ficou espantado com a recepção do público ao seu personagem: “Os brasileiros começaram a ter o Capitão Nascimento como um herói nacional e isso é chocante para mim, porque ele não é, de maneira nenhuma, um herói. Ele mata, tortura”.

Também falando sobre o fascínio que o protagonista exerce no público, Maria Ribeiro contou: “Minhas amigas diziam que achavam um absurdo eu ter me divorciado do Nascimento, mas é claro que isso é porque elas gostam do Wagner, porque o personagem sempre foi um péssimo marido”. “Neste segundo filme, minha personagem amadureceu muito e passou a enxergar a situação por uma perspectiva diferente. No primeiro, ela era alienada, mas agora ela já se preocupa com o que acontece na sociedade, pois quer que o filho viva num lugar melhor”, constata a atriz.

Perguntado se achava que o governo Lula havia falhado em sua proposta inicial de combate à corrupção, Padilha opinou: “Com certeza, levando-se em consideração este prisma, o governo Lula foi extremamente fracassado. Foi um governo que decepcionou em diversas questões, mas também acertou em outras”. “Acho imperdoável que Lula, uma pessoa que intenta ser humanista e defende a democracia, tenha apoiado Ahmadinejah (presidente iraniano), sendo que aquele exerce repressão em seu povo, torturou e matou. As pessoas às vezes o perdoam por achá-lo ignorante, mas ele tem conselheiros que entendem melhor do que ele e ele não poderia ter feito isso”, disse Padilha, sob aplausos tímidos de alguns repórteres.

Indagado sobre como seria uma terceira parte da obra, o diretor foi direto: “Não sei como seria uma Tropa de Elite 3, porque não tenho intenção de fazê-lo. Já disse o que tinha que dizer sobre estas questões no Brasil e agora quero falar sobre outros assuntos”.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Entrevista com Caio Gullane

Caio Gullane (Foto: divulgação)
Pouca gente sabe, mas entre os maiores responsáveis pela realização de um filme estão os produtores, muitas vezes os únicos a participarem de todas as etapas pelas quais passa um filme.

Quem não ficou chocado com a realidade mostrada pelo filme Carandiru, que entremeia situações limite de violência e precariedade com a solidariedade de um médico? Quem não chorou junto com Neto, personagem de Bicho de Sete Cabeças, que vivencia a realidade cruel de um manicômio? Ou com o pequeno Caio deixado pelos pais, obrigados a fugir da ditadura, em O ano em que meus pais saíram de férias, semifinalista na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar, em 2008? 
 
Nos bastidores desses e outros sucessos de bilheteria estão os irmãos produtores Caio e Fabiano Gullane. A jornalista Luciana Seabra realizou e cedeu para o blog Fred Burle no Cinema uma entrevista com o Caio, que contou os bastidores do trabalho e falou sobre o bom momento do cinema brasileiro.

Qual é o papel do produtor em um filme?
O nosso envolvimento vai desde o começo, quando escolhemos o roteiro, até o final, quando o filme é exibido nas salas de cinema. Nós buscamos recursos, preparamos a filmagem, estamos sempre presentes, trocando ideias com o diretor, acompanhamos a montagem e, depois de pronto, organizamos o lançamento. Diretor e produtor são os grandes parceiros em um filme.

Quanto tempo um filme te consome por dia?
Eu trabalho entre cinco e seis dias por semana, por volta de 10 a 12 horas por dia.

Por que tipo de desafios vocês passam no trabalho de produção?
Existe uma dificuldade dentro do cinema que é o desembolso do dinheiro. A captação dos recursos para os filmes nunca é coisa simples. Conciliar as agendas dos profissionais envolvidos também é difícil. E uma terceira dificuldade é lidar com a cidade funcionando normalmente e ter que entrar ali com uma realidade de ficção.

Você pode dar um exemplo de uma situação em que isso aconteceu?
No As melhores coisas do mundo, a família principal foi filmada em uma casa na Lapa. Nós estávamos dentro do horário normal, tínhamos contrato para filmar ali, conversamos com a vizinhança, mas um vizinho criou várias complicações. Ele ficava caçando problemas, deixava o som alto, atrapalhando a nossa filmagem. Com muita educação, mostramos que nossa atividade não ia atrapalhar o cotidiano dele e conseguimos fazer a filmagem. Outro exemplo foi quando filmamos uma cena noturna no centro de São Paulo. Marcamos para a madrugada, com autorização do CET e da Polícia Militar. Só que na área em que íamos filmar, à noite, tinha uma feira ambulante irregular...

E aí? Como vocês fizeram?
Fizemos um acordo com o pessoal da feira: eles ficaram com um pedaço da rua e nós ficamos com o outro. Esse tipo de desorganização da cidade muitas vezes atrapalha a gente.

Das produções feitas pela Gullane, qual filme mais te marcou?
A gente tem um carinho especial por todos os filmes. O que eu acho legal é que a gente acaba se apropriando de muitas realidades diferentes. Quando vou fazer um filme como o Carandiru, acabo entrando na realidade penitenciária. Quando faço um filme sobre a ditadura, como O ano em que meus pais saíram de férias, eu entendo mais sobre esse período. Esse é um filme em que nós ficamos na lista dos pré-escolhidos para participar do Oscar. Fomos para o Festival de Berlim e ele foi muito bem de público, então me traz muitas lembranças boas.

"Meu País"
A Gullane produz neste momento o Meu país. O que você pode adiantar?
É uma coprodução Brasil e Itália, gravada em Roma e em São Paulo (capital e Paulínia). Os brasileiros vão se identificar, porque trata da dupla nacionalidade, que quase todos nós temos. Nós somos uma mistura. O Rodrigo Santoro faz o papel de um filho de italiano que nasceu no Brasil e foi morar na Itália. Ele viveu 15 anos por lá e agora está voltando para cá. O filme mostra um pouco desse convívio entre duas culturas diferentes, porém que estão unidas há anos pelos laços familiares. Ele deve entrar em cartaz em setembro.

O que mais vem por aí?
Estamos fazendo também uma animação de longa metragem. O título provisório é Lutas. É um desenho animado para adolescentes e adultos, que trata das guerras brasileiras. Começa com os portugueses, vai à ditadura e chega ao futuro, em 2.100. A voz do personagem principal é de Selton Mello e a da heroína é de Camila Pitanga. Esse estreia no final do segundo semestre.

Como você avalia esse momento do cinema brasileiro?
Acho um momento muito propício, por algumas características. A primeira é o fortalecimento da Agência Nacional de Cinema (Ancine), criada para regular e fomentar o cinema. Outra é a existência de cada vez mais investimentos diretos, por entender que cinema vai trazer retorno. A terceira coisa que acho muito bacana é o fato de o cinema brasileiro ser plural. Ano passado, por exemplo, tivemos um filme que fala da violência brasileira, que é o Tropa de Elite, outro mais religioso, que é o Nosso Lar, outro que trata do adolescente, que é o nosso...

Os temas são plurais. E o público? É variado?
Sim. Outra coisa que faz o cinema brasileiro estar em um momento bom é justamente as diversas classes, os diversos públicos que têm ido assistir aos filmes. O aumento das classes C e D no cinema, juntamente com uma política do governo de abrir salas mais populares, contribuiu bastante. Acho que o cinema no Brasil tem deixado de ser uma coisa restrita. Tem muito para ampliar ainda, mas já é um movimento muito bom.


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Luciana Seabra é jornalista formada na Universidade de Brasília e mestre em Economia pela Universidade de Campinas/SP. Já foi repórter da Rádio CBN, escreveu para inúmeras revistas e jornais e atualmente é a mais recente contratada jornalista econômica do jornal Valor Econômico.


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Entrevista com a equipe de "As Melhores Coisas do Mundo"


O filme As Melhores Coisas do Mundo estreará na próxima sexta-feira (16/04) e a Warner, distribuidora, forneceu-me algumas declarações da equipe, sobre o filme. Abaixo, alguns trechos das impressões de cada um sobre a produção deste belo filme, cuja crítica vocês poderão conferir aqui no blog, ainda antes da estreia.
Na foto (da esquerda para a direita): Fiuk, José Carlos Machado, Francisco Miguez, Denise Fraga e Laís Bodansky
Laís Bodansky (diretora), sobre o que a convenceu a dirigir um filme como este: “O universo adolescente não é retratado no cinema brasileiro. Quando é retratado é de maneira caricatural. E, esse, é um público ávido por informação. Esse recorte me encantou. Falar do adolescente e para eles. Ou seja, usando a linguagem deles. Falar com sinceridade sem ser de cima para baixo.
Em 'As Melhores Coisa do Mundo' não precisamos forçar a barra quanto aos assuntos que foram trazidos à trama. Esses jovens falam de cidadania e ética sem perceber no seu dia a dia. No universo da casa, com a família os adolescentes funcionam como verdadeiras esponjas. Ouvem comentários e acabam digerindo e devolvem para o mundo da forma como eles mesmos entenderam. Não quisemos dar um tom didático.”

Luís Bolognesi (roteirista), sobre a participação dos jovens no processo criativo: “O meu método foi a pesquisa de campo. O trabalho passou a visitar o público adolescente, passar a tarde com eles, ainda sem uma pergunta específica. Perguntando apenas o que era importante na vida deles, como é o relacionamento com os pais. A partir dessas conversas foram surgindo temas. Quando finalizei o roteiro, chamei alguns meninos que participaram da pesquisa e outro grupo de jovens para um batepapo para perguntar o que achavam do texto. E os adolescentes foram apontando pontos fracos, alguns personagens que deveriam ser mais pensados e outras nuances que deveriam ser repensadas.”

Luís Bolognesi (roteirista), sobre os objetos simbólicos do filme: “Tem certos objetos que ganham dimensão psicológica no filme. Antes de exercerem essa função é preciso criá-los. Como o gorro, em 'Bicho de Sete Cabeças'. Em 'As Melhores...' temos vários objetos protagonistas. Eles deflagram a evolução psicológica do personagem, como é o caso do violão. A atitude que Mano tem com seu violão no começo do filme é absolutamente diferente da que ele tem no final. O violão é um símbolo de status e que ao longo de sua vivência no filme vai se transformando numa forma de expressão com o mundo, na voz mais profunda do protagonista. A ampulheta de Pedro também tem essa função. A baqueta de bateria da Bruna e o caderno de anotações da Carol são outros objetos-personagens.”

Laís Bodansky (diretora), sobre a emocionante e desde já antológica cena do ovo: “Não sei se vou ter a sorte de fazer uma cena como essa novamente. Tão simples e ao mesmo tempo tão complexa. É uma cena que costumo dizer que é agridoce, você ri e chora ao mesmo tempo. Confesso que tinha medo dessa cena por ter um tom melodramático. Mas, durante a leitura do roteiro, a cena dos ovos era a que se destacava entre os adolescentes.
A cena não foi ensaiada. No dia da filmagem, conversamos melhor sobre ela para darmos uma coerência para a ação. E, então, pontuei: primeiro um ovo cai e esse ovo que cai sem querer acaba sendo a gota d'água.
O menino, como observador, transforma aquela gota d'água da mãe numa brincadeira, porque ele tem leveza pra isso.”

Denise Fraga (atriz), sobre a quebra de paradigma que há na trama, de que os pais que se encarregam de profissões mais distantes da formação do jovem são aqueles que mais se alienam sobre a vida de seus filhos (seu personagem e de seu marido em cena são intelectuais, professores de pós-graduação): “A gente como pai não sabe a melhor maneira de educar. A educação é sempre um xeque-mate. Para eles (pais de Mano e Pedro) também isso é colocado à prova. O saber no âmbito familiar não se aplica a teoria do qual são profissionais.
Os pais tentam criar cartilhas para educar seus filhos. Mas como racionalizar sentimentos? Se é que existe alguma receita é afeto e paciência, que em minha opinião, são essenciais para a educação de um filho.
Todo pai se exige ser um pedagogo. Tem aquela culpa que todos nós carregamos que é a ideia
de que temos que saber tudo. Isso não é verdade. Acho que a minha personagem quer parecer uma boa mãe e por isso deixa de lado a vida profissional.
Uma frase que traduz isso no filme é 'Kant ficou pra mim no supermercado'.”

Luís Bolognesi (roteirista), sobre as improvisações dos jovens em cena: “O que fiz foi desistir de tentar falar como eles. A Laís me pediu para deixar que eles encontrassem seus próprios modos de dizer os diálogos escritos. Construí, então, as frases como um todo e eles faziam os cacos. Isso deu muita naturalidade e eles falavam com a sintaxe e punham os palavrões e as gírias que quisessem. A liberdade de se apropriar dos diálogos deu frescor e originalidade para o filme.”

Os irmãos Caio e Fabiano Gullane, sobre a produção: “O maior desafio em produzir um filme como esse é fazer com que o público a quem ele fala se identifique. O maior medo era o de se fazer um filme de jovens que parecesse conversa de 'tiozinho'. Para isso, tivemos que 'colar' nos meninos. E esse desafio foi transposto, graças a esse mergulho visceral no mundo deles.
Bolamos uma estratégia que foi a convocação do público jovem. E abrimos o jogo com eles. A Warner utilizou a internet como ferramenta para criar essa interatividade. E eles puderam participar da escolha do titulo do filme ao seu cartaz oficial.
Por termos tido um financiamento integral, foi possível contratar a melhor equipe do mundo para o projeto. O dinheiro está todo na tela. Além da equipe de profissionais, utilizamos o formato cinemascope 2:3:5 para concorrer com o apelo desse jovem, que tem um apuro técnico reconhecido por grandes produções como 'Homem-Aranha'.
O foco é a exibição do filme no Brasil. Estamos criando uma estrutura muito grande para isso. Queremos construir uma carreira sólida no país. A partir disso, levá-lo para o mundo.”

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Entrevista exclusiva com o cineasta Sérgio Rezende

Terça-feira, quatro horas da tarde. Lá vou eu, debaixo de um sol castigante para a minha primeira entrevista profissional. Estreia em grande estilo, pois o entrevistado era ninguém menos que Sérgio Rezende, diretor de grandes sucessos nacionais, como O Homem da Capa Preta, Guerra de Canudos e Zuzu Angel e cujo novo filme, Salve Geral, foi o escolhido desse ano para representar o Brasil no Oscar 2010.

Obviamente estava nervoso, mas bastou começar a conversar que tudo fluiu e o que era para ser uma entrevista de 15 minutos virou um bate-papo super agradável de 40 minutos, permeado de “causos” impagáveis (mas infelizmente impublicáveis) e interrompidos aqui e acolá por algum veículo de comunicação querendo falar com o Sérgio, afinal, Salve Geral estreará nesta sexta-feira em todo o país e todos querem falar com ele.

O diretor demonstrou estar muito ansioso para saber como será recebido seu filme pelo público, mas bem otimista e sempre simpático com os jornalistas, independente de quais veículos cada um representava, o que surpreendeu-me positivamente.


O resultado da entrevista vocês conferem adiante:


Fred Burle – Sérgio, será que finalmente veremos um drama nacional fazer boa bilheteria neste ano?

Sérgio Rezende – Rapaz, este negócio é igual eleição. Só depois da apuração... não dá para cantar vitória antes da hora. Eu estou com uma expectativa boa, acho que esse filme tem um punch maior que Zuzu Angel, que já teve uma bilheteria excelente, perdendo naquele ano somente para Se Eu Fosse Você, coincidentemente a maior bilheteria desse ano, com sua continuação. Salve trata de um assunto mais contemporâneo, de São Paulo, que é o maior mercado de cinema do Brasil... Mas temos que ver. Cinema é imprevisível.



FB – Seus filmes quase sempre contam um pedaço da história do Brasil, mas em Zuzu Angel e Salve Geral o enfoque é numa mãe em busca da salvação da filho, ficando o aspecto histórico como pano de fundo. O que te atrai nas histórias dessas mulheres, quer sejam reais, quer sejam fictícias?

SR – É evidente que essas histórias me atraem, mas na verdade é o público que gosta mais disso do que eu, porque já fiz doze filmes, mas os filmes que o público mais viu foram aqueles baseados em histórias verídicas. Até mesmo em Guerra de Canudos o cerne do filme era uma família e que também tinha uma mulher como protagonista. Eu acho que tem umas questões na dramaturgia, que quanto mais quente a relação entre os personagens, mais dramático aquilo se dá. Se você faz um filme sobre dois desconhecidos que se encontram num trem, ok, aquilo pode esquentar. Se forem dois amigos que se encontram no trem, já esquentou. Se forem dois irmãos, pô, já esquentou mais ainda. Se eles dois se comerem, aí a temperatura... (risos) Quanto mais próximos os personagens forem, mais facilmente o público se identificará com aquilo. Em Zuzu, a personagem era ela porque o filme obviamente era sobre ela, mas em Salve não. A Lúcia foi inventada, mas eu achei que aquilo esquentava, porque é uma mulher de classe média que vai descobrir um mundo jamais imaginado. Ela está lá, tocando piano, no seu mundinho, quando de repente uma bomba cai no seu colo e ela percebe como as coisas realmente são lá fora.



FB – Que foi o que aconteceu com a população de São Paulo no dia daqueles ataques, ou seja, a realidade invadiu a vida das pessoas e aquilo foi como uma bomba pra todo mundo...

SR – Exatamente, esse submundo irrompeu como se fosse um bueiro e começaram a sair larvas dali de dentro e as pessoas, sem saber, estavam sentadas em cima de um vulcão.



FB – Posso interpretar então, que você, quando escolhe um argumento para desenvolver, você leva sempre em consideração a identificação com o público...

SR – Com certeza. Eu não faço filme para mim. Não tenho essa arrogância de não querer falar com os outros. Estou num jogo e convido o público para jogar esse jogo. Pode ser que o público aceite e goste, pode ser que não goste. É um jogo. O público não é formado de bossais ou “Zé Manés”. Não dá para desconsiderá-los e eu não desconsidero mesmo.



FB – De onde você tirou todas aquelas informações de bastidores do PCC?

SR – Foi a coisa mais fácil do mundo. Informação, no mundo de hoje, é mato. Na época do acontecido, a tevê dedicou horas de cobertura, os jornais publicaram páginas e mais páginas, na internet você clica e encontra um monte de informação, então esse negócio de pesquisa foi muito fácil.



FB – Mas você conversou com policiais, presidiários...

SR – Com policiais sim, com presidiários, não. Conversei com promotor de justiça, com procuradores, com jornalistas, com o delegado Rui Fontes, que foi o cara responsável por prender a maior parte daqueles líderes. Até acho que o filme não trata dos bons policiais, mas eles existem. Tanto que aqueles caras estão presos. Se fosse tudo porcaria, a prisão estaria vazia. Mas nesse caso específico, a polícia formou um outro lado, a banda podre, que fez coisas escabrosas. Com os presidiários não conversei, porque os líderes estavam presos em regime diferenciado e não dava pra eu chegar lá e dizer “olha, estou fazendo um filme e quero falar com vocês”...



FB – Por que a fixação em ter a Andréa Beltrão no papel principal, em meio a tantos rostos desconhecidos?

SR – A Andréa tem uma carreira no teatro, que eu acompanho faz muito tempo e sempre tive loucura em trabalhar com ela. Escrevi pensando nela e ainda bem que deu certo. Não tenho nada contra as grandes estrelas, já fiz muito filme com elas e quero voltar a fazer um dia, mas nesse filme eu queria um figura pública um pouco mais discreta e a Andréa é assim. Eu precisava de um elenco desconhecido, para dar um certo mistério sobre quem era o mocinho ou o bandido, mas evidentemente nenhuma distribuidora me daria recursos pra fazer um filme, se eu não tivesse pelo menos um nome. Apesar de a Andréa ser superconhecida do público e reconhecida como uma grande atriz, ela não tem a superexposição que uma atriz de novelas tem. E por ser de teatro, sabia que ela estaria à vontade com o restante do elenco.



FB – Além da Andréa, a Denise Weinberg também está muito bem no filme, como todo o elenco. Como foi a preparação do elenco? Seí que você fez questão de prepará-los, sem que fosse preciso ter um preparador de elenco na equipe...

SR – Aí entra a questão pornográfica da história, porque “pô”, você casa, mas ao invés de ir pra lua-de-mel, você chama um preparador de sexo pra ir no seu lugar? Como é que eu vou abrir mão do maior prazer, o orgasmo do cinema, que é preparar os atores? Não que não dê certo ter um profissional assim. Até dá certo, o cara “pode ser bom de cama”, mas “pô”, dá licença que essa noite é minha! (risos)



FB – Você já declarou não ser muito a favor da câmera na mão, mas nesse filme você cedeu e resolveu usá-la em favor da narrativa e da própria dinâmica do filme. Depois disso, você mudou sua opinião com relação aos “tremidos” na fotografia?

SR – Mudei! Mas é que quando você faz um filme histórico, o seu espaço cenográfico é limitado. O cenógrafo construi ali uma parede e você não pode mexer a câmera fora dali, senão aparece um carro 0Km num filme de época e isso não dá. Isso engessa um pouco a câmera. Mas nesse filme, que é um filme contemporâneo, eu resolvi soltar a câmera, porque isso dá aos atores uma liberdade total de movimentação, porque a câmera pode seguí-los à vontade. Até comecei filmando com steadycam, mas lá pelas tantas vi que o Fábio Burti (operador de câmera) era tão bom que resolvi deixá-lo fazer a câmera na mão, porque aí os atores criavam a mise-en-scène e o câmera os seguia jornalisticamente. Não acho que tenha ficado treme-treme, mas que dessa liberdade da câmera eu gostei pra cacete, isso eu gostei!



FB – Tive uma curiosidade com relação à trilha sonora, que rege momentos incríveis no filme, especialmente na sequência dos ataques. Uma vez o Ronaldo Duque (diretor de Araguaya) me disse que não dava para contratar uma orquestra inteira para compor um trilha (por questões financeiras), então era comum usar elementos falseadores para criar uma música orquestrada, mas que na verdade era feita por apenas umas três pessoas! Você teve que usar desses recursos ou o orçamento do filme deu pra pagar uma orquestra inteira?

SR – Deu pra fazer orquestrada! Mas o Miguel Briamonte (que assina a trilha do filme), que é um grande diretor de musicais para teatro, conhece muitos músicos e não sei que mágica que ele fez com os caras, mas ele reuniu a maior orquestra que eu já tive num filme. Eram 21 violinos, não sei quantas violas e violoncelos, era uma maçaroca sonora brutal e por um preço, cara... barato pra caramba!



FB – Sérgio, você consegue vislumbrar um cenário cinematográfico nacional mais industrial e menos estatal? Pra você, qual dos dois sistemas é melhor?

SR – O melhor sistema é o empresarial. Eu acho uma coisa constrangedora que eu, aos 58 anos, tenha que de dois em dois anos prestar vestibular de novo. Nenhum médico faz vestibular outra vez, nenhum engenheiro faz vestibular duas vezes. O cineasta faz. Ele vai ao BNDES, se inscreve, faz até prova oral pra defender o projeto, pra ver se continua trabalhando ou não. Nas outras profissões, se o cara demonstrar capacidade, continuará trabalhando, mas no cinema você tem que demonstrar sempre que você é capaz de fazer os filmes. Isso acontece porque o mercado de cinema brasileiro é ridículo. O Brasil tem 180 milhões de habitantes, mas vende 90 milhões de ingressos ao ano, ou seja, cada um vai meia vez por ano ao cinema. Isso compõe um mercado deste tamaninho e que não é rentável. Isso é um problema do Brasil, porque quando houver renda suficiente pra população ir ao cinema duas vezes ao ano, aí vai dar pra ir ao banco, pegar o dinheiro, fazer seu filme e recolher o recurso no mercado, senão o Estado tem que continuar apoiando, o que é maravilhoso, porque só assim fazemos nossos filmes, mas tem todas essas aporrinhações.



FB – Como você recebeu a notícia da seleção do Salve Geral para representar o Brasil no Oscar? Você pretende divulgá-lo no circuito de festivais que antecedem o Oscar?

SR – Não, eu estou jogando no campeonato nacional. Se eu chegar entre os quatro, aí eu vou disputar a Libertadores. Se eu ganhar a Libertadores, eu vou pra Tóquio. Eu acho que o meu objetivo é conquistar o mercado brasileiro. Sexta-feira o filme vai entrar em cartaz e é isso que me deixa doente, ansioso, porque é o Brasil, é pra cá que eu fiz o filme, pro público daqui. Então esse é o primeiro desafio. Se a gente conseguir atrair o espectador brasileiro e ele gostar, eu acho que o espectador é igual no mundo todo. Quando a luz apaga, somos todos iguais. Se conquistarmos o público brasileiro, isso me dará mais confiança de que podemos conquistar o público externo. Achei uma maravilha ter sido indicado, mas também já estou numa idade que não tenho mais deslumbramento com as coisas, porque sei que tudo é possível, mas tudo é difícil. Mas vou jogar o jogo, porque acho ridículo o cara entrar em campo dizendo que treinou a semana inteira, mas está preparado pra perder. Tem que ter coragem pra ganhar e tem que ter coragem pra perder.


Agradecimentos: Luciana Seabra.

 
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